
Por Lucindo José Quintans Júnior*
A ascensão do Nordeste no sistema científico brasileiro constitui um dos movimentos mais relevantes da recente evolução da pós-graduação e da produção científica nacional. Durante décadas, a excelência acadêmica brasileira esteve fortemente concentrada nos grandes centros do Sul e do Sudeste, onde se acumularam universidades mais antigas, infraestrutura laboratorial, agências estaduais robustas de fomento, redes internacionais consolidadas e maior capacidade de captação de recursos. Essa concentração produziu um sistema científico assimétrico, no qual competência e oportunidade nem sempre estiveram distribuídas de forma proporcional. 
Os dados mais recentes, entretanto, mostram sinais consistentes de mudança. Na avaliação quadrienal da CAPES 2021–2024, o número de programas classificados nos estratos de excelência, conceitos 6 e 7, cresceu de forma mais acelerada fora do eixo tradicional. No Nordeste, esses programas passaram de 60 para 80, um crescimento de 33%, superior ao observado no Sudeste, com 14%, e no Sul, com 20%. Esse movimento não significa que as desigualdades regionais tenham sido superadas, mas indica que a capacidade científica de alto nível está se expandindo territorialmente e que novas instituições passaram a competir em patamares antes quase exclusivos dos centros mais consolidados.
Esse processo precisa ser analisado à luz da própria estrutura do financiamento científico brasileiro. Embora tenha havido recuperação recente dos investimentos federais em ciência, tecnologia e inovação, a distribuição dos recursos permanece fortemente concentrada. Dados consolidados de 2023 mostram que apenas 28,5% dos recursos não reembolsáveis do FNDCT destinados a universidades e instituições de pesquisa foram direcionados conjuntamente ao Norte, Nordeste e Centro-Oeste, regiões que concentram cerca de 45% da população brasileira. Para empresas de base tecnológica, a assimetria foi ainda mais pronunciada: apenas 5% dos recursos foram destinados a essas três regiões, contra 95% para Sul e Sudeste.
A mesma lógica aparece nos investimentos em inovação. Na análise de aproximadamente R$ 21,5 bilhões destinados à Nova Indústria Brasil em 2023–2024, o Sudeste recebeu 48% e o Sul 41%, concentrando quase 90% dos recursos. O Nordeste ficou com apenas 5,5%, enquanto Norte e Centro-Oeste receberam 1,1% e 5,1%, respectivamente. Esses números revelam que a expansão da excelência científica nordestina tem ocorrido sem uma redistribuição equivalente das condições materiais necessárias à sua sustentabilidade.
A assimetria é cumulativa. Regiões que historicamente receberam mais recursos construíram laboratórios, redes, massa crítica, capacidade administrativa e tradição de captação, aumentando posteriormente sua competitividade em novos editais. Em contrapartida, instituições localizadas em regiões historicamente subfinanciadas precisam concorrer pelos mesmos recursos sem dispor, em muitos casos, da mesma infraestrutura de partida. O resultado é um círculo de concentração no qual recursos anteriores aumentam a capacidade de captar recursos futuros.
Por isso, discutir excelência científica regional exige ultrapassar a simples contagem de artigos. O próprio debate contemporâneo sobre desempenho científico incorpora variáveis como impacto de citações, colaboração internacional, produtividade, formação de recursos humanos, inserção em periódicos de alto impacto e capacidade de responder a problemas econômicos, sociais e sanitários. O relatório da Clarivate sobre o Brasil mostra que o país permanece como o 13º maior produtor mundial de publicações científicas, mas ainda apresenta desempenho abaixo da média internacional em indicadores de impacto, com cerca de 0,8% dos artigos entre o 1% mais citado e menos de 6% entre os 10% mais citados em 2023. Nesse contexto, o avanço de instituições nordestinas em indicadores de excelência não representa apenas crescimento quantitativo, mas também ganho de maturidade científica.
Essa maturidade aparece de forma particularmente clara na pós-graduação. A expansão dos programas 6 e 7 no Nordeste demonstra que universidades da região passaram a atingir padrões avaliativos compatíveis com excelência nacional e internacional. Esses programas operam como núcleos de formação avançada, internacionalização, produção científica e indução de redes regionais. Em áreas como Saúde, Engenharia, Ciências Agrárias, Biotecnologia e Ciências Ambientais, essa consolidação tende a produzir efeitos que ultrapassam a universidade e alcançam sistemas de saúde, cadeias produtivas, inovação tecnológica e políticas públicas.
O caso de Sergipe ajuda a ilustrar esse processo. No Ranking de Competitividade dos Estados 2026, recém publicado, o estado aparece em 4º lugar nacional e 2º no Nordeste em Pesquisa Científica, com nota 30,1. A posição ganha significado quando observada ao lado de sua pequena escala científica. Segundo a Clarivate, Sergipe produziu 5.033 artigos entre 2019 e 2023, ocupando apenas o 22º lugar nacional em volume, mas apresentou CNCI de 0,89, próximo ao desempenho de São Paulo, que alcançou 0,93 com uma produção muito superior. Esse contraste entre escala reduzida e impacto relativamente elevado sugere eficiência científica e reforça a hipótese de que excelência regional pode emergir mesmo sob restrições estruturais.
Nesse ambiente, a Universidade Federal de Sergipe (UFS) ocupa posição central, respondendo pela maior parcela da produção científica do estado e funcionando como um dos principais vetores de formação de recursos humanos, pesquisa e inovação em Sergipe. Esse desempenho, entretanto, não resulta de uma área isolada, mas da consolidação progressiva de diferentes campos do conhecimento. Os indicadores bibliométricos disponíveis no SciVal e na Clarivate apontam a Saúde como um dos alicerces mais robustos dessa produção, tanto em volume quanto em impacto, acompanhada por contribuições crescentes das Ciências Biológicas e Agrárias, Ciências Exatas e da Terra e Ciências Humanas e Sociais. Essa diversidade é particularmente relevante porque demonstra que a capacidade científica institucional adquiriu caráter sistêmico e interdisciplinar, reduzindo a dependência de núcleos isolados de excelência.
Na Saúde, essa maturidade encontra uma de suas expressões mais emblemáticas no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da UFS (PPGCS-UFS), que alcançou conceito 7 na avaliação da CAPES, integrando o restrito grupo de seis programas com nota máxima na Área Medicina I e sendo o único das regiões Norte e Nordeste nesse patamar. Entretanto, esse resultado deve ser compreendido dentro de um processo institucional mais amplo. Nas últimas duas décadas, a UFS ampliou sua produção científica e consolidou competências em diferentes áreas, combinando crescimento quantitativo com maior inserção em redes colaborativas e veículos científicos qualificados. Mesmo atravessando períodos prolongados de restrição orçamentária e desinvestimento nacional em ciência – contexto no qual as universidades brasileiras perderam recursos e a pesquisa sofreu forte retração -, essa capacidade científica permaneceu competitiva.
O desafio, portanto, não é mais demonstrar se o Nordeste tem competência científica. Essa competência já está demonstrada. O desafio agora é transformar excelência emergente em capacidade estrutural permanente. Isso exige financiamento estável, infraestrutura compartilhada, políticas de fixação de jovens pesquisadores, redes interinstitucionais, maior internacionalização e mecanismos de fomento que considerem assimetrias históricas sem reduzir os padrões de mérito.
Descentralizar a ciência brasileira não significa enfraquecer os centros consolidados. Significa ampliar a capacidade científica do país como um todo. Os próprios estudos sobre o financiamento do FNDCT argumentam que os novos recursos precisam ser utilizados estrategicamente para reduzir desigualdades regionais, fortalecendo a autonomia científica e a competitividade de áreas historicamente subfinanciadas.
O crescimento da excelência no Nordeste demonstra que o país possui uma reserva de capacidade científica ainda subaproveitada. Quando regiões com menor infraestrutura e menor participação histórica nos recursos nacionais conseguem elevar produção, impacto e qualidade da pós-graduação, a conclusão mais racional não é exigir que continuem fazendo mais com menos, mas criar condições para que façam ainda mais com o que efetivamente necessitam.
A questão estratégica para o Brasil, portanto, não é apenas reconhecer o avanço científico do Nordeste. É compreender que reduzir as assimetrias regionais da ciência é uma política de desenvolvimento nacional. Quanto mais diversificada territorialmente for a produção de conhecimento, maior será a capacidade do país de responder a problemas locais, formar recursos humanos, gerar inovação e transformar ciência em desenvolvimento econômico e social.
*Prof. Dr. Lucindo José Quintans Júnior. Professor Titular no Departamento de Fisiologia e docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde (PPGCS) e (PPGCF), da Universidade Federal de Sergipe. E-mail: lucindo@academico.ufs.br
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