
Antes de 2013, a política brasileira era marcada por um relativo consenso centrista, no qual PT e PSDB, apesar da disputa eleitoral, compartilhavam uma zona de acomodação em torno da democracia representativa, da estabilidade econômica e da combinação entre mercado e políticas sociais. As manifestações de junho de 2013 romperam esse equilíbrio e abriram espaço para uma polarização assimétrica: enquanto a esquerda manteve, em linhas gerais, a defesa da ampliação de direitos e do papel social do Estado, a direita passou por maior radicalização, articulando antipetismo, conservadorismo moral e segurança pública. A crise de representação evoluiu para uma crise institucional, expressa na contestação do resultado eleitoral de 2014, no impeachment de Dilma Rousseff (PT) em 2016 e na crescente judicialização da política. A ascensão de Jair Bolsonaro (PSL) e a renovação do Congresso em 2018 consolidaram esse processo, marcado pelo enfraquecimento das mediações tradicionais e pela expansão das forças conservadoras.
É nesse contexto que se compreende a transformação do Senado entre 2014 e 2026. Com 81 senadores, três por estado e pelo Distrito Federal, mandatos de oito anos e renovação alternada de um terço e dois terços das cadeiras, a Casa mantém forte vínculo com as elites políticas estaduais (Brasil, 2026a). Em 2014, foram renovadas 27 cadeiras, mas a ruptura ganhou força em 2016, quando o impeachment de Dilma Rousseff foi aprovado por 61 votos a 20, aprofundando a polarização entre petismo e antipetismo (Brasil, 2016).
O principal ponto de inflexão ocorreu em 2018, quando 46 das 54 vagas disputadas foram conquistadas por novos nomes, renovação superior a 85%, fortalecendo candidaturas associadas à segurança pública, ao conservadorismo moral e à crítica à esquerda (Brasil, 2018). A renovação, contudo, não eliminou desigualdades de gênero, raça e classe, nem as estruturas tradicionais de poder. A partir de 2019, polarização ideológica e pragmatismo parlamentar passaram a coexistir: o governo Bolsonaro precisou negociar com o centro, enquanto a CPI da Pandemia reforçou a função fiscalizadora do Senado (Brasil, 2021). A eleição de 2022 consolidou o avanço da direita, especialmente do PL, mas preservou a importância de PT, PSD, MDB, União Brasil e PP nas negociações, tornando a Casa simultaneamente mais polarizada e dependente de acordos entre diferentes forças políticas (Brasil, 2022).
Em 2026, essa configuração permanece. O PL aparece como a maior bancada, com 15 senadores, seguida pelo PSD, com 14; MDB, com dez; PT, com 9; e PP, com 7. Esses números revelam o crescimento da direita e, simultaneamente, a inexistência de uma força capaz de controlar isoladamente o Senado. A política senatorial continua dependente de blocos, negociações e interesses estaduais. A Casa tornou-se, desse modo, simultaneamente mais polarizada no plano discursivo e bastante pragmática em sua operação cotidiana (Brasil, 2026b).
É nesse cenário nacional que a eleição de Sergipe ganha importância especial. Em 2026, dez candidatos e uma candidata disputam duas vagas para o Senado: André Moura (União Brasil), Alessandro Vieira (MDB), Coronel Rocha (PL), Delegado André David (Republicanos), Edvaldo Nogueira (PDT), Eduardo Amorim (Republicanos), Iran Barbosa (PSOL), Paulinho da União Tur (Democracia Cristã), Renatinha (Democracia Cristã), Rodrigo Valadares (PL) e Rogério Carvalho (PT). O(a) eleitor(a) sergipano terá, portanto, de escolher dois nomes entre candidaturas que representam trajetórias políticas, ideológicas e profissionais bastante distintas (Brasil, 2026d).
O conjunto das candidaturas é particularmente revelador, pois reproduz, em escala estadual, as principais tendências que marcaram a transformação do Senado brasileiro. Há políticos profissionais e articuladores institucionais, representantes da chamada “renovação política”, ex-senadores, ex-prefeitos, agentes da força de segurança, empresário, sindicalista e professor. Sergipe oferece, dessa maneira, uma espécie de laboratório da política senatorial contemporânea: diferentes formas de produzir legitimidade eleitoral disputam, simultaneamente, apenas duas cadeiras.
O campo da esquerda em Sergipe apresenta três candidaturas com trajetórias e identidades distintas. Rogério Carvalho (PT) representa o lulismo e a esquerda institucional. Médico, ex-secretário municipal de Saúde de Aracaju, ex-deputado estadual e federal e senador eleito em 2018, busca a reeleição com uma trajetória vinculada à saúde pública, às políticas sociais e à defesa do SUS. Edvaldo Nogueira (PDT), ex-prefeito de Aracaju e liderança histórica da esquerda sergipana, representa a tradição associada à gestão pública municipal e à trajetória do PCdoB. Iran Barbosa (PSOL), professor, ex-deputado federal, ex-deputado estadual e vereador, expressa uma esquerda social mais vinculada à educação pública, ao sindicalismo e aos direitos sociais. A presença dos três revela a diversidade interna do campo progressista e, simultaneamente, a disputa por um eleitorado comum em uma eleição que oferece apenas duas cadeiras.
A centro-direita reúne candidaturas marcadas, sobretudo, pela experiência institucional, pela capacidade de articulação e pela busca de posições intermediárias na polarização nacional. Alessandro Vieira (MDB), senador eleito em 2018, representa a renovação política daquele ciclo, com trajetória como delegado de polícia e atuação voltada à segurança pública, ao combate à corrupção e à defesa das instituições. Sua candidatura combina o discurso de renovação com a experiência parlamentar e ocupa uma posição intermediária entre setores conservadores e o bolsonarismo. André Moura (União Brasil) representa a política profissional e a capacidade de articulação: ex-prefeito de Pirambu, deputado federal e líder do governo Michel Temer (2016-2028), chega à disputa apoiado em alianças e negociação política. Eduardo Amorim (Republicanos), médico, ex-deputado federal e ex-senador, também expressa a experiência institucional e uma posição de centro-direita. Em conjunto, essas candidaturas demonstram que a renovação eleitoral não eliminou as estruturas tradicionais da política sergipana, mas as adaptou ao novo ambiente de polarização.
A direita apresenta significativa diferenciação interna, reunindo bolsonarismo, conservadorismo militar, política de segurança pública e conservadorismo cristão, Vale ressaltar que esses traços sociais não são excludentes e, em certo sentido, até se complementam. Rodrigo Valadares (PL) é uma das candidaturas mais diretamente identificadas com o bolsonarismo em Sergipe, enquanto Coronel Rocha (PL) representa a dimensão militar, com ênfase em autoridade, ordem e segurança pública. Delegado André David (Republicanos) acrescenta ao campo conservador a experiência policial e o discurso de combate à criminalidade. Já Paulinho da União Tur e Renatinha, ambos da Democracia Cristã, expressam uma vertente de conservadorismo de inspiração cristã, associada à defesa da família e de valores tradicionais.
A direita, portanto, não é homogênea: reúne diferentes projetos, trajetórias e linguagens políticas, que vão do bolsonarismo à centro-direita, passando pelo militarismo, pela segurança pública e pelo conservadorismo cristão. Essa diversidade pode ampliar sua capacidade de alcançar diferentes segmentos do eleitorado, mas também favorecer a dispersão dos votos. O mesmo ocorre no campo progressista, que reúne o lulismo e a esquerda institucional de Rogério Carvalho, a tradição comunista e a experiência de gestão pública de Edvaldo Nogueira e a esquerda social, sindical e vinculada à educação pública de Iran Barbosa. Assim, a eleição de 2026 será marcada não apenas pela polarização entre esquerda e direita, mas também pela competição interna em cada campo político, em uma disputa na qual onze candidaturas concorrem por apenas duas cadeiras no Senado.
A divisão entre esquerda, centro e direita, contudo, não deve ser tomada como uma classificação rígida ou estanque. O centro pode dialogar com a direita em temas como segurança pública e, simultaneamente, aproximar-se da esquerda em determinadas políticas sociais. Da mesma forma, as fronteiras internas dos campos progressista e conservador são atravessadas por diferentes trajetórias, pautas e formas de identificação política.
Essa característica torna especialmente importante o segundo voto. Como cada eleitor(a) deverá escolher dois senadores ou uma senadora e um senador, tornando as alianças e combinações eleitorais decisivas. Um(a) eleitor(a) de esquerda poderá votar em dois candidatos progressistas ou combinar um candidato do PT com um nome de centro. Um(a) eleitor(a) conservador(a) poderá escolher dois candidatos da direita ou combinar um candidato bolsonarista com uma candidatura de centro-direita. O resultado dependerá, portanto, não apenas da força individual de cada candidato(a), mas da capacidade de construir uma segunda opção dentro de diferentes segmentos do eleitorado.
A disputa pelas duas vagas de Sergipe ao Senado em 2026 revela uma contradição central: a oferta eleitoral está mais polarizada do que o próprio eleitorado. As onze candidaturas distribuem-se entre esquerda, centro e diferentes vertentes da direita, reproduzindo a clivagem nacional entre lulismo e bolsonarismo. Entretanto, se considerarmos os dados da pesquisa publicada em 2024 pelo Senado Federal, 42% dos sergipanos declaram não possuir posicionamento ideológico definido. Entre os que se identificam, 26% estão à direita, 15% à esquerda e 12% ao centro. A eleição, portanto, não será decidida apenas pelas bases ideológicas, mas pela capacidade de conquistar um eleitorado amplo, pragmático e menos vinculado a identidades partidárias (Senado Federal, 2024).
O perfil dos(as) eleitores(as) combina conservadorismo nos costumes com demandas de proteção social. A rejeição ao uso livre da maconha, manifestada por 87%, convive com o apoio de 59% às cotas raciais nas universidades. Esse contraste mostra que o eleitorado sergipano não se enquadra facilmente em uma classificação linear de esquerda ou direita. É possível defender posições conservadoras em questões morais e, simultaneamente, apoiar políticas sociais, ações afirmativas e uma presença ativa do Estado. A polarização nacional, portanto, possui limites para explicar o comportamento eleitoral no estado.
Entre as demandas concretas, saúde e segurança pública constituem os principais eixos da disputa. A saúde é apontada como principal problema por 40% dos sergipanos, enquanto 81% não possuem plano privado, favorecendo candidatos com trajetória na área, como Rogério Carvalho e Eduardo Amorim. Na segurança, 46% identificam o tráfico e o uso de drogas como principal problema e 87% rejeitam o uso livre da maconha, criando condições favoráveis a Alessandro Vieira, Delegado André David, Coronel Rocha, Rodrigo Valadares e aos candidatos da Democracia Cristã.
Essa convergência, contudo, não significa adesão automática à direita: valores conservadores nos costumes podem coexistir com demandas por saúde, políticas sociais e redução das desigualdades. Como 59% não acompanham os debates do Senado, a escolha tende a depender menos da produção legislativa e mais de variáveis como profissão, reputação, partido, lideranças, religião, trajetória e presença territorial. Assim, a disputa será definida também pela capacidade de converter pautas sociais e redes políticas em votos, sobretudo na formação da segunda escolha.
Nesse cenário, o centro pode desempenhar papel estratégico, com Alessandro Vieira, André Moura e Eduardo Amorim capazes de dialogar com diferentes segmentos. A esquerda reúne Rogério Carvalho, Edvaldo Nogueira e Iran Barbosa, representando lulismo, gestão pública e esquerda social, mas essa diversidade pode fragmentar os 15% de identificação com o campo progressista. A direita, por sua vez, embora reúna 26% de identificação ideológica, também se divide entre bolsonarismo, militarismo, segurança pública e conservadorismo cristão, representados por Rodrigo Valadares, Coronel Rocha, Delegado André David, Paulinho da União Tur e Renatinha.
A dimensão territorial completa esse quadro. Os 42% de eleitores sem identificação ideológica constituem um amplo espaço de disputa que dificilmente será conquistado apenas por discursos nacionais. Prefeitos, vereadores, igrejas, grupos econômicos, associações profissionais e lideranças municipais poderão ser fundamentais para transformar preferências difusas em votos. Em Sergipe, experiência política e capilaridade territorial continuam sendo recursos importantes, mesmo em uma eleição fortemente nacionalizada.
O caso sergipano, portanto, sintetiza as transformações do Senado entre 2014 e 2026: polarização e descolamento ideológico, conservadorismo moral e apoio a políticas sociais, nacionalização e força das redes locais, renovação e permanência das elites políticas. A eleição será menos uma simples disputa entre esquerda e direita do que uma competição pela capacidade de combinar ideologia, problemas concretos e alianças territoriais.
Em uma eleição com dez candidatos e uma candidata para apenas duas vagas, a vitória dependerá não apenas de possuir uma base fiel, mas de conseguir tornar-se a segunda escolha de eleitores(as) situados fora do próprio campo político.
*Professor Titular da UFS. E-mail: periclesdcs@academico.ufs.br
Referências:
AVRITZER, Leonardo. O pêndulo da democracia no Brasil: uma análise da crise 2013–2018. Novos Estudos CEBRAP, n. 111, p. 273-289, mai./ago. 2018.
BRASIL. Senado Federal. Por 61 votos a 20, Senado aprova o impeachment de Dilma Rousseff. Brasília, DF, 31 ago. 2016.
BRASIL. Senado Federal. Eleições: Senado tem a maior renovação da sua história. Brasília, DF, 8 out. 2018.
BRASIL. Senado Federal. Bancadas do Senado estarão mais concentradas em 2023. Brasília, DF, 31 out. 2022.
BRASIL. Senado Federal. Composição do Senado Federal. Brasília, DF: Senado Federal, 2026a.
BRASIL. Senado Federal. Ano eleitoral começa com novo desenho de blocos partidários no Senado. Brasília, DF, 26 jan. 2026b.
BRASIL. Tribunal Regional Eleitoral de Sergipe. Eleições 2026. Aracaju: TRE-SE, 2026c.
BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. DivulgaCandContas: divulgação de candidaturas e contas eleitorais: eleições 2026. Brasília, DF: Tribunal Superior Eleitoral, 2026d. Disponível em: https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/NORDESTE/SE/20322002026. Acesso em: 25 ago. 2026.
BRUGNAGO, Fabrício; CHAIA, Vera. A nova polarização política nas eleições de 2014: radicalização ideológica da direita no mundo contemporâneo do Facebook. Revista Aurora, v. 8, n. 21, p. 99-129, 2015.
OLIVEIRA, Wilson José Ferreira de. Mídias sociais digitais, participação política e protestos anticorrupção. Estudos Sociológicos, Araraquara, v. 26, n. 50, p. 277-299, jan./jun. 2021.
SENADO FEDERAL. Instituto de Pesquisa DataSenado. Perfil político-ideológico e fatores de influência sobre o eleitorado de Sergipe: uma análise do Panorama Político 2024. Brasília: Senado Federal, 2024. Disponível em: https://www.senado.leg.br/institucional/datasenado/relatorio_online/pesquisa_panorama_politico/2024/interativo.html. Acesso em: 24 ago. 2026.
O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.