
Por Fernanda Rios Petrarca* e Péricles Andrade**
A bancada federal de Sergipe mudou de perfil ao longo da última década. Entre as eleições de 2014, 2018 e 2022, aumentou o peso de parlamentares identificados com o centro-direita e a direita, enquanto a esquerda passou a ocupar um espaço menor, embora tenha mantido representação importante. Essa mudança acompanha a transformação da política brasileira depois de 2013, mas também responde às características da política sergipana, especialmente à força das bases municipais e das alianças construídas em torno de prefeitos, vereadores e lideranças regionais. 
As Jornadas de Junho de 2013 constituem um importante ponto de inflexão da crise democrática brasileira contemporânea. Iniciadas contra o aumento das tarifas de transporte, as manifestações rapidamente expressaram uma crise de representação e abriram espaço para novas disputas políticas, especialmente no campo liberal-conservador. A expansão das mídias digitais, o discurso anticorrupção e o antipetismo contribuíram para essa reconfiguração, posteriormente radicalizada pela Lava Jato, pelo impeachment de 2016 e pela ascensão do bolsonarismo. Junho de 2013, assim, marcou uma transformação nas formas de participação, representação e conflito político no Brasil (Oliveira, 2021).
A partir daí, diferentes grupos passaram a disputar o significado das manifestações. Setores progressistas mantiveram pautas relacionadas aos direitos sociais, à qualidade dos serviços públicos e à democratização da sociedade. Ao mesmo tempo, ganharam espaço discursos anticorrupção, antipartidários e, posteriormente, liberais e conservadores. Para Firmino (2024), junho de 2013 foi decisivo para a dinâmica política brasileira da década seguinte, embora sua complexidade não possa ser reduzida a uma única interpretação.
Nos anos seguintes, essa transformação ganhou novas dimensões. Na economia, cresceram a defesa do empreendedorismo, da meritocracia e da responsabilidade individual, acompanhadas de críticas à intervenção estatal e a determinadas políticas sociais. No campo moral, grupos religiosos ampliaram sua participação no debate público, especialmente em temas relacionados à família, ao aborto, à sexualidade e à educação. Na segurança pública, ganharam força propostas de endurecimento penal, armamento e valorização das instituições policiais. Essas dimensões contribuíram para a formação de uma agenda conservadora mais ampla (Casimiro, 2016; Almeida, 2017).
A dimensão religiosa merece atenção especial. A expansão da presença evangélica na política brasileira não pode ser compreendida apenas pelo crescimento eleitoral de determinados grupos religiosos, mas também pela construção de pautas e estratégias de atuação no espaço público. Almeida (2017) identifica a aproximação entre setores evangélicos e posições conservadoras, especialmente em temas relacionados à moral, aos costumes e à família. Essa presença contribuiu para ampliar o peso das questões morais na disputa política brasileira.
A reorganização da direita também modificou os mecanismos tradicionais de mobilização. Casimiro (2016) analisa a constituição de aparelhos de ação político-ideológica associados à chamada Nova Direita e mostra como diferentes organizações atualizaram estratégias de mobilização e disputa política. Nesse ambiente, movimentos como MBL e Vem Pra Rua ganharam visibilidade e utilizaram as redes sociais para transformar o descontentamento com o governo e os partidos em mobilização política.
A Operação Lava Jato passou igualmente a ocupar posição central. A combinação entre discurso anticorrupção, crise econômica, desgaste do governo Dilma Rousseff (2015-2016) e mobilização social modificou o equilíbrio político nacional. O impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, abriu uma nova etapa dessa transformação. Em 2018, a eleição de Jair Bolsonaro (PSL) consolidou parte desse processo ao reunir antipetismo, conservadorismo moral, discurso de segurança pública e defesa de uma agenda econômica liberal. A direita, anteriormente fragmentada, encontrou uma liderança capaz de ocupar o centro da disputa nacional.
Sergipe acompanhou esse movimento. A bancada eleita em 2014 era mais heterogênea, reunindo parlamentares de centro, centro-direita, direita conservadora, centro-esquerda e esquerda. Em 2018, as pautas de segurança pública e o conservadorismo ganharam espaço. Em 2022, a composição passou a estar mais concentrada no centro-direita e na direita, embora a presença de João Daniel (PT) tenha mantido uma referência importante para o campo progressista. Temos uma bancada predominantemente situada entre o centro-direita e a direita, mas atravessada pelo pragmatismo, pelo municipalismo e pela negociação institucional.
Sendo assim, podemos analisar a atual bancada federal de Sergipe a dividida em quatro classificações analíticas: esquerda/progressista, centro pragmático, centro-direita e direita. Trata-se de uma tipologia interpretativa, elaborada a partir do partido, da atuação parlamentar, das pautas predominantes e da relação com o Executivo. A classificação é de elaboração própria, com base no levantamento da bancada federal de Sergipe (2014-2026), e não constitui classificação oficial.
Nesse enquadramento, João Daniel (PT) representa à esquerda/progressista, com atuação associada aos direitos sociais, trabalhadores, agricultura familiar, direitos humanos, igualdade e meio ambiente. Fábio Reis (PSD) situa-se no centro pragmático, com ênfase no municipalismo, saúde, infraestrutura, investimentos e articulação regional. O centro-direita reúne Delegada Katarina (PSD), Yandra Moura (União Brasil), Gustinho Ribeiro (Republicanos) e Thiago de Joaldo (PP), que combinam pautas econômicas, sociais e municipais com diferentes graus de conservadorismo. Delegada Katarina destaca-se pela segurança pública e proteção das mulheres; Yandra Moura, pelo desenvolvimento regional, empreendedorismo e participação feminina; Gustinho Ribeiro, pelas pautas municipais, saúde, infraestrutura e assistência social; e Thiago de Joaldo, por emprego, desenvolvimento econômico e municipalismo. À direita, situam-se Ícaro de Valmir (PL) e Rodrigo Valadares (União Brasil). Ícaro apresenta perfil conservador associado à segurança, família e liberdade econômica, enquanto Valadares se aproxima de uma direita liberal-conservadora, com ênfase em liberdade econômica, redução de impostos, segurança e combate à corrupção.
Vale ressaltar que a direita não constitui um campo homogêneo. Há diferenças entre o conservadorismo mais ideológico e os parlamentares de centro-direita, que mantêm uma relação mais pragmática com o Executivo. Também há uma distância significativa entre esses setores e João Daniel, cuja atuação apresenta maior continuidade programática com o campo progressista. Essas diferenças aparecem nas grandes votações econômicas do Congresso, nas quais o comportamento dos parlamentares sergipanos não segue automaticamente as posições do governo federal nem a divisão entre esquerda e direita. Em diferentes momentos, deputados de oposição apoiaram propostas do Executivo, enquanto parlamentares situados fora da oposição mais radical rejeitaram medidas defendidas pelo governo, conforme demonstra o quadro a seguir:
| Votação | Governo | Votos da bancada sergipana | Resultado |
| Teto de gastos — 2016 | Michel Temer | 5 a favor / 2 contra | Maioria favorável |
| Reforma trabalhista — 2017 | Michel Temer | 2 a favor / 5 contra | Maioria contrária |
| Reforma da Previdência — 2019 | Jair Bolsonaro | 5 a favor / 3 contra | Maioria favorável |
| Reforma tributária — 2023 | Luiz Inácio Lula da Silva | 7 a favor / 1 contra | Ampla convergência |
Fonte: elaboração própria a partir do levantamento do comportamento parlamentar da bancada federal de Sergipe.
Esses resultados ajudam a separar posicionamento ideológico de comportamento parlamentar. A oposição ao governo não significa rejeição a todas as suas propostas, assim como a proximidade com o Executivo não produz apoio automático. O caso da reforma tributária é particularmente expressivo: uma proposta central do governo Lula (2022-2026) recebeu o apoio de sete dos oito deputados sergipanos, incluindo parlamentares situados no centro-direita e na direita. Essa convergência mostra que o comportamento parlamentar também é influenciado pelos interesses regionais e pelo conteúdo específico das matérias.
No caso sergipano, essa dimensão está diretamente relacionada ao peso do municipalismo. Deputados de diferentes campos ideológicos mantêm relações estreitas com prefeitos e lideranças locais e procuram apresentar resultados concretos em suas regiões. Saúde, infraestrutura, educação, assistência social e investimentos municipais aparecem entre as áreas recorrentes da atuação parlamentar, fazendo do municipalismo um ponto de encontro entre posições distintas. Um deputado pode defender uma agenda conservadora no Congresso e, simultaneamente, negociar recursos com o governo federal para atender demandas municipais. Da mesma forma, outro pode apoiar o governo em questões sociais e econômicas e manter relações próprias com sua base local. Essa dinâmica ajuda a explicar por que as alianças estaduais e municipais nem sempre reproduzem as divisões políticas de Brasília.
Por isso, classificar a bancada exclusivamente pelo eixo esquerda-direita produziria uma leitura incompleta. É necessário observar também a relação de cada deputado com os municípios, as pautas regionais, os grupos políticos estaduais e os governos de turno. A política parlamentar sergipana combina, portanto, identificação ideológica e capacidade de negociação.
Se nas pautas econômicas existe espaço para negociação, os temas da moralidade pública produzem divisões mais nítidas. Aborto, direitos LGBTQIA+, identidade de gênero, educação sexual e família estão entre as principais pautas da disputa entre progressistas e conservadores, refletindo a crescente presença evangélica na política (Almeida, 2017). Para Maria das Dores Campos Machado, o neoconservadorismo reage às conquistas feministas e LGBTQIA+ por meio da defesa da família tradicional e do combate à chamada “ideologia de gênero”. Esse movimento aproximou setores evangélicos da direita cristã e do bolsonarismo, projetando valores religiosos sobre a sociedade e as políticas públicas. Durante o governo Bolsonaro, essa agenda alcançou o Estado, especialmente por meio da atuação de Damares Alves. Assim, as disputas morais expressam também uma disputa pela definição dos valores sociais e das fronteiras entre religião, política e Estado (Machado, 2020). Nesse sentido, João Daniel está mais associado à defesa da ampliação de direitos e à proteção de grupos vulnerabilizados e às agenda identitárias. No campo conservador, Rodrigo Valadares e Ícaro de Valmir apresentam posições mais claramente contrárias a determinadas agendas progressistas. Entre os parlamentares de centro-direita, as posições são mais variadas e dependem do tema analisado.
A segurança pública constitui outro eixo importante. A valorização das forças policiais, o endurecimento penal e o combate ao crime são temas presentes especialmente entre parlamentares situados à direita e no centro-direita. Delegada Katarina possui, nesse campo, uma identidade própria, construída a partir de sua trajetória profissional na segurança pública.
A presença dessas pautas na bancada sergipana está relacionada à transformação da política brasileira após 2013. Segurança, família, religião e costumes (moralidade pública) passaram a ocupar espaço maior na disputa eleitoral e legislativa. A reorganização da direita descrita por Casimiro (2016) e o crescimento da influência política de setores evangélicos analisado por Almeida (2017) ajudam a compreender a importância dessas questões.
Talvez, a melhor caracterização da atual bancada federal de Sergipe é a de uma representação predominantemente de centro-direita, municipalista e pragmática, com presença de setores mais claramente conservadores e de uma representação progressista. Essa composição resulta de uma transformação gradual, e não de uma ruptura isolada.
Em 2014, o quadro era mais heterogêneo. Em 2018, a polarização nacional e o fortalecimento da agenda de segurança alteraram o ambiente eleitoral. Em 2022, o centro-direita e a direita passaram a ocupar a maior parte das cadeiras sergipanas, enquanto o PT permaneceu como principal referência da esquerda. Essa mudança acompanha a trajetória nacional iniciada em 2013. A crise de representação abriu espaço para novas formas de mobilização; a reorganização da direita ampliou sua capacidade de disputar as ruas e as eleições; o impeachment de Dilma modificou o equilíbrio político; e o bolsonarismo consolidou uma nova identidade para parte importante do campo conservador (Firmino, 2024; Casimiro, 2016).
Sergipe, porém, não simplesmente reproduziu a política nacional. O estado incorporou essas transformações a uma estrutura política marcada pelo municipalismo, pela força das lideranças locais e pela negociação entre diferentes grupos. Por isso, a bancada pode ser majoritariamente de centro-direita e, ao mesmo tempo, apresentar elevado grau de pragmatismo nas votações econômicas.
A eleição de 2026 ocorrerá nesse cenário. Os deputados terão de combinar a disputa nacional, marcada pela polarização entre lulismo e bolsonarismo, com a necessidade de preservar e ampliar suas bases municipais. Para compreender o comportamento parlamentar, é insuficiente saber apenas se um deputado é de esquerda, centro ou direita. É necessário observar como vota, quais pautas prioriza, com quais governos negocia e quais interesses representa.
A bancada federal de Sergipe revela, assim, uma mudança importante na política do estado. A esquerda perdeu espaço relativo, o centro-direita tornou-se predominante e a direita conservadora ganhou maior presença. Ao mesmo tempo, o municipalismo permaneceu como característica transversal e o comportamento pragmático impediu que a polarização nacional se transformasse em alinhamento automático em todas as matérias.
O resultado é uma representação que combina ideologia e negociação, polarização e municipalismo, oposição e diálogo institucional. É nessa combinação, mais do que nos rótulos partidários isolados, que está uma das principais chaves para compreender o comportamento da bancada sergipana na última década.
*Professora Associada da Universidade Federal de Sergipe. E-mail: fernandarpetrarca@gmail.com
**Professor Titular da Universidade Federal de Sergipe. E-mail:periclesdcs@academico.ufs.br
Referências
ALMEIDA, Ronaldo de. A onda quebrada: evangélicos e conservadorismo. Cadernos Pagu, Campinas, n. 50, e175001, 2017.
CASIMIRO, Flávio Henrique Calheiros. A nova direita no Brasil: aparelhos de ação político-ideológica e atualização das estratégias de dominação burguesa (1980-2014). 2016. Tese (Doutorado em História Social) – Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2016.
FIRMINO, Gustavo Casasanta. Junho de 2013: um balanço dez anos depois. Lutas Sociais, São Paulo, v. 28, n. 52, p. 164-181, jan./jun. 2024.
MACHADO, Maria das Dores Campos. A vertente evangélica do neoconservadorismo brasileiro. In: GUADALUPE, José Luis Pérez; CARRANZA, Brenda (orgs.). Novo ativismo político no Brasil: os evangélicos do século XXI. Rio de Janeiro: Konrad Adenauer Stiftung, 2020. p. 271-286.
OLIVEIRA, Wilson José Ferreira de. Mídias sociais digitais, participação política e protestos anticorrupção. Estudos Sociológicos, Araraquara, v. 26, n. 50, p. 277-299, jan./jun. 2021
SCHERER-WARREN, Ilse. Manifestações de rua no Brasil 2013: encontros e desencontros na política. Caderno CRH, Salvador, v. 27, n. 71, p. 417-429, maio/ago. 2014.
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