
Por Marcelo Farias Barreto*
Jair Bolsonaro passou por nove partidos em pouco mais de três décadas — PDC, PDS, PPR, PP, PFL, PTB, PSC, PSL e PL. Essa trajetória revela menos fidelidade ideológica e mais adaptação a oportunidades políticas. A família Bolsonaro nunca se destacou pela construção de um pensamento consistente, liberal ou conservador, mas por oportunismo, busca de poder, autoritarismo e pela capacidade de transformar ressentimentos sociais em capital eleitoral. Quem muda de partido nove vezes não tem ideologia. Tem ambição.
Mas a história do bolsonarismo começa antes da política partidária. Começa no Exército, na década de 1980, quando o então capitão Jair Bolsonaro foi expulso das Forças Armadas por planejar atentados terroristas. A acusação era grave: conspirava para explodir bombas em instalações militares, em protesto contra salários baixos. Os próprios militares, em plena ditadura, acharam que ele havia ido longe demais. Isso não é pequeno detalhe biográfico. É a matriz do movimento. O bolsonarismo nasce do terrorismo de Estado que até o Estado achou excessivo.
Esse é o ponto de partida para entender o que o bolsonarismo realmente é. Não é direita clássica. Não é conservadorismo. Não é liberalismo. É um agrupamento de marginais, fascistóides e agentes do crime organizado ao qual, ao longo de sua ascensão, setores da direita tradicional e do liberalismo brasileiro se entregaram – ou se deixaram capturar – ideologicamente. O discurso ideológico nunca passou de instrumento. O que importava sempre foi o poder, a violência e a impunidade. A prova está nos fatos. E os fatos formam uma linha contínua, do capitão expulso pelo Exército ao ex-presidente que tentou destruir a democracia.
O bolsonarismo encontrou na direita seu terreno natural: anticomunismo, antipetismo, conservadorismo de costumes, militarismo, reação a mudanças sociais e, depois, liberalismo econômico. Mas a relação não foi unilateral. Parte importante da direita, após sucessivas derrotas para o PT, viu em Bolsonaro uma chance concreta de vitória. Foi uma aliança de conveniência que evoluiu para dependência e, por fim, captura política.
A entrada de Paulo Guedes simboliza essa lógica. Bolsonaro nunca foi um liberal consistente, mas passou a se apresentar ao lado de um economista identificado com o mercado e as privatizações. Guedes oferecia credibilidade econômica; Bolsonaro, base eleitoral. O mesmo padrão se repetiu com outros grupos: religiosos, militares e conservadores. Não era necessário compartilhar princípios, apenas identificar interesses convergentes. Com o tempo, a direita tradicional acreditou que poderia controlar essa força. Ocorreu o inverso. Bolsonaro passou a definir quem era ‘de direita’ e quem era ‘traidor’. Partidos e lideranças passaram a ajustar estratégias à sua base eleitoral. A aliança virou dependência, e a dependência, captura. A direita que imaginava usar Bolsonaro acabou submetida à sua linguagem e às suas regras.
Qualquer análise do fenômeno, porém, é incompleta se ignorar sua proximidade recorrente com a marginalidade, a violência e as milícias. Em 2008, Flávio Bolsonaro, então deputado estadual no Rio de Janeiro, votou contra a abertura da CPI das Milícias na Assembleia Legislativa. Na época, uma repórter, um fotógrafo e um motorista do jornal O Dia haviam sido sequestrados e torturados por milicianos na Favela do Batan, em Realengo, na zona oeste do Rio. A equipe foi espancada por cerca de sete horas. O crime organizado já extorquia moradores, cobrava taxas ilegais, controlava gás, transporte e internet, e assassinava quem se opusesse. Flávio, no entanto, achou por bem barrar a investigação. Anos depois, justificou dizendo que ‘não se sabia exatamente o que eram as milícias’. Cinismo que beira a confissão.
A relação da família Bolsonaro com Adriano Magalhães da Nóbrega, o ‘Capitão Adriano’, diz tudo. Adriano era suspeito de chefiar milícia na zona oeste do Rio e integrava o Escritório do Crime, grupo apontado como executor do assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes. Mesmo preso por homicídio, Adriano foi homenageado por Flávio com a Medalha Tiradentes, a maior honraria da Alerj. A mãe e a mulher dele trabalharam no gabinete de Flávio. Isso não é coincidência. É estrutura.
O oportunismo não se limita à política institucional. Invadiu a religião com a mesma frieza calculista. Em 2018, Jair Bolsonaro foi batizado no rio Jordão, numa cerimônia feita para as câmeras. Virou símbolo da ‘fé cristã’ para milhões de evangélicos. Mas sua biografia desmente a conversão: três casamentos, filhos de diferentes mulheres, discursos misóginos e homofóbicos que ferem os preceitos mais básicos do cristianismo. A captação do voto evangélico não nasceu de convicção. Nasceu de cálculo eleitoral. Pastores viraram cabos eleitorais. Templos viraram comitês de campanha. A fé virou instrumento de fidelização política. Mas o cristianismo bolsonarista não prega o amor ao próximo, a justiça social, a preferência pelos pobres. Prega o ódio ao diferente, a legitimação da violência, a submissão incondicional ao líder. É uma seita política usando a roupa da religião.
E quando os princípios religiosos atrapalham, são descartados sem cerimônia. Defende a ‘família tradicional’ enquanto seus líderes têm histórico de infidelidade. Invoca Deus enquanto mente sistematicamente. Cita a Bíblia enquanto promove políticas de destruição de territórios indígenas e de extermínio da população negra. A religião, no bolsonarismo, é commodity eleitoral. Produto de prateleira. Quando perde utilidade, sai de linha.
O moralismo de fachada segue o mesmo roteiro — e aqui a farsa atinge seu ápice. A família Bolsonaro é o próprio contrário do que pregam. Jair, eleito sob a bandeira da moralidade, viu três filhos — Flávio, Carlos e Eduardo — envolvidos em investigações por corrupção, rachadinhas, fake news e tráfico de influência. A ‘família tradicional’ que propagam como ideal é, na prática, uma estrutura de poder que mistura negócios, política e crime como se fossem a mesma coisa.
Mas o desmonte do discurso moralista vai além dos Bolsonaro. Vai até os aliados que o bolsonarismo elegeu, nomeou e protegeu. Em Santa Catarina, berço eleitoral do bolsonarismo, dezoito prefeitos bolsonaristas foram presos em pouco mais de um ano por corrupção, desvio de recursos públicos e fraudes em licitações de serviços de limpeza urbana — na Operação Mensageiro e no desdobramento Limpeza Urbana. A retórica anticorrupção que mobilizou a base em 2018 desmorona diante do próprio comportamento dos gestores bolsonaristas no poder. E há algo ainda mais grave. O discurso obsessivo contra a ‘ideologia de gênero’ nas escolas, contra a ‘sexualização precoce’ de crianças, contra os direitos LGBTQIA+, serve de cortina de fumaça para uma realidade muito mais sinistra. O próprio Jair Bolsonaro foi alvo de ação criminal por apologia à pedofilia em 2022, após declarações em que associava turismo sexual infantil a supostas práticas de governos anteriores. A defesa da ‘inocência das crianças’ na tribuna política coexiste com a trivialização do abuso sexual infantil nos bastidores.
O moralismo bolsonarista é seletivo e instrumental. Condena a ‘ideologia de gênero’ nas escolas, mas silencia diante da violência contra mulheres. Defende a ‘liberdade de expressão’ para espalhar mentira, mas persegue jornalistas, artistas e professores. Prega o ‘respeito às instituições’, mas tenta golpe de Estado, ataca o Judiciário e nega resultados eleitorais. Prega a ‘moral e os bons costumes’, mas abriga em suas fileiras corruptos, milicianos e abusadores. Isso não é conservadorismo. É oportunismo moral. Usa o moralismo como arma sem jamais se submeter a ele. E usa a defesa da família como escudo para proteger os próprios crimes.
Mas é na violência política que a essência do bolsonarismo se revela de forma mais crua. E aqui a linha se fecha: do capitão expulso por planejar atentados terroristas no Exército ao ex-presidente que tentou explodir a democracia. A estratégia de 8 de janeiro de 2023 não surgiu do nada. Foi precedida por uma escalada de violência planejada e executada por apoiadores do bolsonarismo. Em dezembro de 2022, um caminhão-tanque carregado de combustível foi detido próximo ao Aeroporto Internacional de Brasília. O veículo, conduzido por apoiadores bolsonaristas, tinha como destino explícito provocar uma explosão em área estratégica da capital federal. A intenção era causar terror, desestabilizar as instituições e criar caos na véspera da posse do presidente Lula.
Nos dias que antecederam o 8 de janeiro, grupos bolsonaristas promoveram uma série de atentados por todo o país. Queimaram veículos em rodovias federais e em Brasília. Depredaram instalações da Polícia Federal. Tentaram invadir quartéis e forçar intervenção militar. Cercaram quartéis por meses, exigindo golpe de Estado abertamente. Cada um desses atos seguia a mesma lógica do jovem capitão que planejava explodir bombas nas instalações militares: a violência como método político, o terror como instrumento de pressão, a destruição como estratégia de poder. O 8 de janeiro foi a culminação dessa trajetória. Milhares de bolsonaristas invadiram e depredaram o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal e o Palácio do Planalto. Quebraram obras de arte, roubaram armas, ameaçaram a vida de autoridades, destruíram patrimônio histórico e simbólico da nação. A cena era a de um ataque terrorista contra o Estado democrático de direito. E não foi espontâneo. Foi organizado, financiado e incentivado por redes bolsonaristas que operavam desde o alto escalão do ex-governo bolsonarista até as redes sociais.
Jair Bolsonaro, em Orlando, acompanhou os fatos sem condená-los. Pelo contrário: passara meses semeando a narrativa de fraude eleitoral, sem apresentar uma única prova, sem reconhecer a derrota, sem garantir a transição pacífica de poder. O capitão expulso por terrorismo contra o próprio Exército tornou-se o presidente que incentivou o terrorismo contra a própria democracia. A estratégia é a mesma. Mudaram apenas o alvo e a escala.
O que ocorreu com a direita tradicional e com o liberalismo brasileiro não foi uma conquista do bolsonarismo. Foi uma rendição – uma entrega de bandeiras em troca de oportunismo eleitoral, uma capitulação ideológica que eles próprios autoraram. Não foram vítimas de uma captura. Foram autores de sua própria submissão diante dos agentes do crime organizado. O bolsonarismo não construiu hegemonia no sentido de conquistar consenso ativo, de formar intelectuais capazes de dirigir a sociedade civil, de criar uma concepção de mundo coerente. Fez o oposto: apropriou-se de símbolos, discursos e instituições alheios e os instrumentalizou para fins estranhos a essas tradições.
A direita clássica — aquela que se reconhece no conservadorismo democrático, no respeito à legalidade, na separação de poderes — se fez refém! Partidos historicamente liberais ou conservadores, como PSL, DEM, PP, MDB, foram subordinados a uma lógica que desconhecia seus princípios. O liberalismo econômico, que defende instituições, regras e previsibilidade, foi reduzido a um slogan de ‘menos Estado’ enquanto o bolsonarismo promovia o maior aumento de gastos com militares e o maior desmonte de políticas públicas da história recente. O conservadorismo, que respeita a tradição institucional, foi substituído por um niilismo que só reconhece como legítimo o poder que detém. Quem ousasse divergir era tachado de comunista, traidor, esquerdista. A captura se fez pela ameaça, não pela persuasão.
Isso não elimina a existência de uma direita democrática, que aceita eleições, alternância de poder e instituições. Ela é adversária legítima. Mas há uma fronteira clara: quando se nega o resultado eleitoral ou se legitima a violência política, rompe-se o campo democrático. Ao mesmo tempo, a direita brasileira não é inocente nesse processo. Parte dela apoiou, financiou ou integrou o bolsonarismo acreditando que seus excessos seriam toleráveis. A violência política expõe esse limite. Os acampamentos golpistas, os ataques às urnas e o 8 de janeiro mostram que não se trata apenas de conservadorismo radical, mas de ruptura institucional. A democracia comporta disputas ideológicas, mas não a violência como método político.
O bolsonarismo não tem projeto de sociedade. Tem projeto de permanência no poder a qualquer custo. Sua ‘ideologia’ é um amálgama oportunista: anticomunismo para mobilizar o medo, militarismo para garantir a lealdade das Forças Armadas, neopentecostalismo para capturar o voto evangélico, liberalismo de fachada para atrair o mercado financeiro, discurso anticorrupção para mascarar a própria corrupção. Cada elemento é instrumental. Nenhum é compromisso. Não constrói. Desmonta. Não persuade. Amedronta. Não governa. Encena. Sua estratégia é o choque permanente, a desestabilização contínua, a destruição institucional. Não há programa. Há mitologia. Não há direção. Há movimento descontrolado em busca de sobrevivência.
É preciso ser claro: a sociedade brasileira comporta setores de direita, de extrema-direita e de liberalismo que participam legitimamente dos embates democráticos sobre projetos econômicos e de poder. Esses setores têm lugar no jogo político institucional. O problema não é sua existência. É sua captura por uma formação que os instrumentaliza sem jamais se comprometer com seus princípios. A tarefa democrática não é recuperar a direita ou o liberalismo para qualquer lado. É desarticular essa captura, restituir a autonomia desses campos e garantir que o debate político ocorra no terreno da institucionalidade, da legalidade e da racionalidade — e não no terreno da milícia, da seita, do terrorismo e do crime organizado.
E é preciso ser ainda mais claro sobre uma coisa. Quem vota em Flávio Bolsonaro não está fazendo uma opção de direita. Não está escolhendo o conservadorismo. Não está optando pelo liberalismo. Essas categorias não se aplicam. O que está sendo escolhido é o reacionarismo com vínculos claros a marginais e milicianos. Não há como separar o voto em Flávio Bolsonaro da homenagem que ele prestou a Adriano da Nóbrega. Não há como separar o voto em Flávio Bolsonaro do voto contra a CPI das Milícias. Não há como separar o voto em Flávio Bolsonaro dos contatos entre sua assessora, Maria de Fátima Bezerra Castro, e Robson Calixto Fonseca, o ‘Peixe’, assessor de Domingos Brazão — um dos mandantes do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. A Polícia Federal identificou mensagens trocadas entre a assessora de Flávio e Peixe em outubro de 2023, quando ele encaminhou pedido de liberação de uma emenda parlamentar de 199 mil reais para uma ONG ligada aos irmãos Brazão.
Não há como separar o voto em Flávio Bolsonaro da Operação Zargun, que prendeu o deputado estadual TH Joias por intermediar a compra e venda de fuzis, armas e equipamentos antidrones para o Comando Vermelho. A investigação identificou um esquema de infiltração do crime organizado na administração pública, com importação de armas do Paraguai e dos EUA, revendidos até para facções rivais. TH Joias utilizava o mandato para favorecer a facção, inclusive nomeando comparsas para cargos na Assembleia Legislativa do Rio. Não há como separar o voto em Flávio Bolsonaro do apoio a Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj, preso por obstruir a Operação Zargun e vazar informações sigilosas que beneficiaram o Comando Vermelho. Não há como separar o voto em Flávio Bolsonaro dos dezoito prefeitos bolsonaristas de Santa Catarina presos por corrupção em licitações de limpeza urbana. Não há como separar o voto em Flávio Bolsonaro das denúncias de apologia à pedofilia que atingiram o próprio Jair Bolsonaro.
O eleitor de Flávio Bolsonaro não está escolhendo um projeto econômico. Não está optando por valores. Não está exercendo uma preferência legítima dentro do espectro democrático. Está dando respaldo político a uma formação cujos vínculos com o crime organizado são documentados, cujas práticas são milicianas, cuja origem é o terrorismo de Estado, cuja estratégia é a violência política e cujos aliados incluem corruptos, abusadores e assassinos.
Não se trata de divergência ideológica. Trata-se de linha divisória. De um lado, a política democrática, com seus embates sobre projetos econômicos e de poder. Do outro, o reacionarismo armado, o crime organizado infiltrado no Estado, a milícia disfarçada de representação popular, a corrupção protegida pelo discurso moralista. O bolsonarismo, a cada dia que passa, revela o que sempre foi. Não é movimento. É esquema. Não é ideologia. É oportunismo. Não é direita tradicional. É decomposição. E não é política. É violência.
*Assessor da Secretaria-Geral da Presidência da República (SGPR), fundador do Partido dos Trabalhadores em Sergipe, ex-dirigente da CUT/SE, ex-presidente do Sindicato dos Mineiros de Sergipe.
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