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29 de julho de 2026
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Entre o genérico e a alma ausente: o hino imposto a Aracaju

Por Mário Resende*

A prefeita de Aracaju, Emília Correia, e sua equipe tiveram a sensibilidade e a coragem de enfrentar uma lacuna histórica: lançar um concurso público para a escolha oficial do Hino de Aracaju. Houve edital, houve disputa, e mais de 30 composições foram inscritas. Um trabalho foi selecionado por um conjunto de estudiosos da área. Por isso, cabe aqui, primeiro, o reconhecimento. Parabéns à prefeita pela iniciativa institucional e parabéns a quem se dispôs a colocar seu nome e seu talento nesse desafio.

Feito o reconhecimento, é preciso dizer: nossa discordância não é com o prêmio, nem com a colocação, nem com a autoria. É com o resultado apresentado. Um hino oficial de capital não pode ser apenas “bonito no papel”. Ele precisa cumprir quatro funções básicas:

  1. Identidade: dizer o nome da cidade e o que só ela tem de específico.
  2. Memória: contar de onde viemos, quem nos construiu e que lutas enfrentamos.
  3. Emoção coletiva: ter melodia e letra cantáveis, que unam o povo na escola, nas ruas, no estádio, no ato cívico etc.
  4. Lirismo e cadência: hino não é relatório. Hino não informa; ele sugere, evoca e emociona. O lirismo transforma a geografia em paisagem íntima e a história em destino compartilhado. A cadência, por sua vez, é o que faz a letra “andar” na melodia sem tropeços, permitindo que qualquer pessoa, da criança ao idoso, consiga cantar junto sem se perder em sílabas truncadas ou versos sem ritmo. Sem cadência, não há coral de torcida, nem coro de escola. Hino que não se consegue cantar não cria pertencimento; vira apenas um documento sonoro. Em suma, hino arrepia, orgulha e permanece.

Lendo, ouvindo e tentando cantar o hino escolhido, cheguei à conclusão de que ele não cumpre esse papel. Eis, portanto, minha análise:

  1. a) Poesia preguiçosa e lugar-comum – O hino está recheado de chavões que servem para qualquer cidade litorânea do Brasil:

“Céu azul-anil”, “cidade ensolarada”, “qualidade de vida”, “aconchego”, “terra adorada”.

Troque “Aracaju” por “Salvador”, “Maceió”, “Natal” ou “Fortaleza” e o hino continua funcionando. Um hino oficial de uma cidade, de um estado ou de um país precisa ter identidade específica. Este não tem.

  1. b) Estrutura desconjuntada- O hino não consegue ser épico e está longe de ser lírico, condições necessárias a um hino institucional. Começa histórico: “Do sonho de Inácio Barbosa”. Vira folheto de agência de viagem: “Sabores do mar! Festejos juninos!”. Depois vira relatório da prefeitura: “Teu traço do xadrez futurista. Sofisticação do engenheiro audaz”. E, do nada, joga uma tragédia: “Torpedos malvados! Guerra maldita!” para voltar ao “gentil, juvenil, varonil”. É uma verdadeira colcha de retalhos, sem arco narrativo que tenha início, desenvolvimento e conclusão emotiva. Repito: falta um arco narrativo.
  2. c) Linguagem datada e artificial- “Varonil”? “Juvenil”? “Cantar-te-ei em versos mil”? “Florão”? Soa como poesia de concurso escolar dos anos 1950. “Povo juvenil” chega a ser hilário. A juventude é uma fase rápida da vida. Classificar um povo como eternamente “juvenil” é um elogio ou um xingamento? Fiquei em dúvida. “Povo varonil” é ainda mais excludente e anacrônico para um hino de 2026. “Varonil” vem de “varão”, substantivo masculino usado para designar força, coragem e valor dos homens, não das mulheres. E as mulheres, onde ficam neste hino? O “azul-anil” é redundância. Anil já é um tom de azul.
  3. d) Omissões graves – Aracaju é uma capital planejada. Tem a Orla, o Centro Histórico, a cultura, os homens e as mulheres que a formaram. Tem brisa, sol, cheiro de mar. É a capital de um estado com nomes indígenas, banhada por rios com nomes indígenas, formada pelo melhor das culturas que compõem a etnografia nordestina. Nada disso aparece. Cita “xadrez futurista”, mas não explica. Cita “torpedos” da 2ª Guerra, mas não contextualiza. Virou um folder turístico em forma de verso. Cadê o povo de verdade? Cadê os bairros? Cadê a força e a história de Aracaju?
  4. e) Refrão fraco – O suposto refrão “Aracaju, terra adorada…”, além de lembrar a estrutura copiada do Hino Nacional, se repete, mas não gruda. Não tem cadência para ser cantado por uma multidão. É declamação. Hino precisa ser cantável. Este cansa já em “Jamais cansarei de dizer-te”. Eu cansei.

Essa percepção não é isolada. Conversei com diversas pessoas da área de música. Um deles acrescentou que “o problema vai além do texto escolhido: é a pobreza criativa de se querer sempre ser ‘o melhor do Brasil’ – melhor céu, melhor São João, melhor praia –, sem que isso se traduza em identidade”. Nossa identidade não nos ensina a sermos melhores que outros brasileiros. Ainda bem. Para muitos aracajuanos, inclusive, canções populares como Amo Aracaju, de Sérgio Lucas, carregam muito mais a essência da cidade do que o hino recém-lançado. Como bem cantou o grupo Cataluzes: “eu quero o cheiro das manhãs da minha terra, ver o sol nascer na serra e o vento norte soprar, nas praias de Atalaia, mirando as ondas do mar”. A música Cheiro da Terra, do Cataluzes, emociona porque fala da vida, da natureza, do povo, da rua, do cotidiano de Aracaju. E é exatamente isso que um hino oficial deveria fazer: emocionar porque é nosso, e só nosso. O hino presenteado a Aracaju, a emoção passou distante.

Por fim, reafirmo e parabenizo a iniciativa da prefeita Emília Correia como correta e necessária. Aracaju não podia continuar sem um hino oficial. Mas corrigir a omissão não pode significar aceitar qualquer resultado sem ouvir a crítica e sem passar pela audição popular. Um hino de capital deve doer, orgulhar e arrepiar. Deve ser cantado em escolas, estádios, atos cívicos e na voz do povo. Precisa ter lirismo, poesia, alma e emoção.

Por respeito à história de Aracaju, aos homens e mulheres que a edificaram, à sua cultura e à sua natureza, à identidade da Orla, do Mercado, do São José e de cada aracajuano, sugiro: que a prefeitura mantenha o concurso como marco, mas abra um amplo debate público para perguntar: esse hino é, de fato, representativo? Aracaju, nome feminino, cuja gestora é mulher, não pode ser cantada  como “varonil”. Aracaju merece um hino que seja dela, desta cidade, e só dela. E, sendo um hino representativo da alma da nossa cidade de Aracaju, será também nosso.

*Prof. Mário Resende – UFS/CECH/DDA/LMB

O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.

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1 Comment

  1. Amâncio Cardoso disse:

    Tive a mesmíssima percepção do professor Mário Resende, quando li e ouvi o hino.
    Mário Resende me representou.

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