
Por Mário Resende*
A prefeita de Aracaju, Emília Correia, e sua equipe tiveram a sensibilidade e a coragem de enfrentar uma lacuna histórica: lançar um concurso público para a escolha oficial do Hino de Aracaju. Houve edital, houve disputa, e mais de 30 composições foram inscritas. Um trabalho foi selecionado por um conjunto de estudiosos da área. Por isso, cabe aqui, primeiro, o reconhecimento. Parabéns à prefeita pela iniciativa institucional e parabéns a quem se dispôs a colocar seu nome e seu talento nesse desafio.
Feito o reconhecimento, é preciso dizer: nossa discordância não é com o prêmio, nem com a colocação, nem com a autoria. É com o resultado apresentado. Um hino oficial de capital não pode ser apenas “bonito no papel”. Ele precisa cumprir quatro funções básicas:
Lendo, ouvindo e tentando cantar o hino escolhido, cheguei à conclusão de que ele não cumpre esse papel. Eis, portanto, minha análise:
“Céu azul-anil”, “cidade ensolarada”, “qualidade de vida”, “aconchego”, “terra adorada”.
Troque “Aracaju” por “Salvador”, “Maceió”, “Natal” ou “Fortaleza” e o hino continua funcionando. Um hino oficial de uma cidade, de um estado ou de um país precisa ter identidade específica. Este não tem.
Essa percepção não é isolada. Conversei com diversas pessoas da área de música. Um deles acrescentou que “o problema vai além do texto escolhido: é a pobreza criativa de se querer sempre ser ‘o melhor do Brasil’ – melhor céu, melhor São João, melhor praia –, sem que isso se traduza em identidade”. Nossa identidade não nos ensina a sermos melhores que outros brasileiros. Ainda bem. Para muitos aracajuanos, inclusive, canções populares como Amo Aracaju, de Sérgio Lucas, carregam muito mais a essência da cidade do que o hino recém-lançado. Como bem cantou o grupo Cataluzes: “eu quero o cheiro das manhãs da minha terra, ver o sol nascer na serra e o vento norte soprar, nas praias de Atalaia, mirando as ondas do mar”. A música Cheiro da Terra, do Cataluzes, emociona porque fala da vida, da natureza, do povo, da rua, do cotidiano de Aracaju. E é exatamente isso que um hino oficial deveria fazer: emocionar porque é nosso, e só nosso. O hino presenteado a Aracaju, a emoção passou distante.
Por fim, reafirmo e parabenizo a iniciativa da prefeita Emília Correia como correta e necessária. Aracaju não podia continuar sem um hino oficial. Mas corrigir a omissão não pode significar aceitar qualquer resultado sem ouvir a crítica e sem passar pela audição popular. Um hino de capital deve doer, orgulhar e arrepiar. Deve ser cantado em escolas, estádios, atos cívicos e na voz do povo. Precisa ter lirismo, poesia, alma e emoção.
Por respeito à história de Aracaju, aos homens e mulheres que a edificaram, à sua cultura e à sua natureza, à identidade da Orla, do Mercado, do São José e de cada aracajuano, sugiro: que a prefeitura mantenha o concurso como marco, mas abra um amplo debate público para perguntar: esse hino é, de fato, representativo? Aracaju, nome feminino, cuja gestora é mulher, não pode ser cantada como “varonil”. Aracaju merece um hino que seja dela, desta cidade, e só dela. E, sendo um hino representativo da alma da nossa cidade de Aracaju, será também nosso.
*Prof. Mário Resende – UFS/CECH/DDA/LMB
O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.
1 Comment
Tive a mesmíssima percepção do professor Mário Resende, quando li e ouvi o hino.
Mário Resende me representou.