
Por Marcelo Farias Barreto*
Há momentos na vida de um partido em que determinadas decisões deixam de ter apenas importância eleitoral e passam a revelar que tipo de organização política ele pretende ser. Nesses momentos, a discussão já não se limita a nomes, candidaturas ou alianças circunstanciais. O que está em jogo é algo muito maior: saber se o partido continuará sendo guiado por um projeto coletivo, construído por sua militância e por suas instâncias democráticas, ou se permitirá que interesses pessoais e acordos locais se sobreponham às decisões tomadas pelo conjunto da organização.
O Partido dos Trabalhadores não nasceu apenas para disputar eleições. Surgiu das lutas dos trabalhadores, dos sindicatos, dos movimentos sociais, das comunidades eclesiais de base, da juventude e de milhares de brasileiros que acreditavam ser possível construir um país mais justo, democrático e soberano. Desde sua origem, o PT buscou ser uma organização política permanente, capaz de representar interesses sociais, formular um projeto nacional e transformar diferentes opiniões em uma direção comum. Foi essa característica que permitiu ao partido atravessar mais de quatro décadas de crises, derrotas eleitorais, perseguições políticas, vitórias históricas e profundas mudanças na sociedade brasileira sem perder sua identidade.
Ao longo dessa trajetória, o PT sempre conviveu com diferentes correntes de pensamento, interpretações distintas da realidade e variadas estratégias para transformar o Brasil. Os debates internos nunca foram tranquilos. Muitas vezes foram intensos, apaixonados e duros. Mas essa diversidade nunca significou que cada grupo ou liderança pudesse seguir sozinho o caminho que considerasse mais conveniente. A democracia interna existe exatamente para que as diferenças sejam debatidas, confrontadas e transformadas em decisões coletivas, legitimadas pelas instâncias do partido e assumidas por todos, inclusive por aqueles que defenderam posições diferentes durante o debate.
Essa compreensão sempre diferenciou o PT das legendas organizadas em torno do personalismo, do mandato de um político ou do poder momentâneo de determinada liderança. Nenhum dirigente, parlamentar, prefeito, governador ou ministro, por maior que seja sua votação ou seu prestígio, pode substituir o partido. A autoridade política não pode depender apenas do peso individual de uma liderança, mas da confiança da militância, da força das instâncias partidárias e do respeito às decisões construídas democraticamente. Quando essa lógica é abandonada, o partido deixa de ser uma organização coletiva e passa a funcionar apenas como uma legenda utilizada por diferentes projetos pessoais.
Essa discussão se torna ainda mais importante diante do crescimento da extrema direita no Brasil e em várias partes do mundo. As forças autoritárias não avançam apenas porque utilizam bem as redes sociais ou porque conseguem mobilizar setores insatisfeitos da sociedade. Elas também crescem quando os partidos democráticos se enfraquecem, quando os sindicatos e movimentos sociais perdem força, quando a política deixa de ser organizada coletivamente e passa a depender da vontade de alguns indivíduos. A extrema direita procura destruir todas as formas de organização capazes de impor limites ao poder pessoal de seus líderes. Por isso, ataca partidos, instituições, imprensa, sindicatos, universidades, movimentos populares e o próprio Estado Democrático de Direito.
Defender partidos fortes, democráticos e organizados, portanto, não é apenas uma questão interna. É também uma forma concreta de defender a democracia. Nenhuma força progressista conseguirá enfrentar o autoritarismo se abrir mão da capacidade de formular estratégias comuns, organizar sua militância, construir alianças e preservar a autoridade de suas decisões coletivas. Foi exatamente essa compreensão que permitiu, no Brasil, a formação de uma ampla frente democrática capaz de derrotar eleitoralmente o projeto autoritário da extrema direita. Essa frente não nasceu porque a esquerda democrática e os setores democráticos de centro passaram a pensar da mesma forma, mas porque compreenderam que a defesa da Constituição e da democracia exigia uma convergência política mais ampla.
É dentro desse horizonte que deve ser compreendida a estratégia nacional liderada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em diferentes estados, inclusive em Sergipe, a política de alianças vem sendo construída como parte de um esforço nacional para fortalecer o campo democrático, ampliar a base política do governo e impedir que a extrema direita volte ao poder. Pode haver divergências sobre a melhor tática, sobre os nomes escolhidos ou sobre o formato das alianças. Isso é legítimo e faz parte da vida partidária. Mas essas divergências precisam ser apresentadas, discutidas e decididas dentro das instâncias do partido, e não substituídas por decisões individuais tomadas à margem do processo coletivo.
É nesse contexto que devem ser analisadas as manifestações públicas de apoio de Mané de Rosinha, Renatinho de Propriá e, mais recentemente, do prefeito de Simão Dias, Cristiano Viana, à candidatura de Valmir de Francisquinho. Esses movimentos não podem ser tratados apenas como escolhas pessoais, amizades políticas ou acordos eleitorais locais. Eles levantam uma questão que precisa ser enfrentada com clareza pelo partido e por sua militância: quem define a orientação política do PT? As instâncias partidárias, democraticamente eleitas, ou cada liderança individualmente, de acordo com seus interesses e conveniências?
O caso de Renatinho de Propriá é bastante ilustrativo. Em outro momento de sua trajetória, quando decidiu integrar o grupo político liderado pelo então governador Albano Franco, optou também por deixar o Partido dos Trabalhadores. Pode-se concordar ou discordar daquela escolha, mas existia coerência entre o caminho político adotado e sua vinculação partidária. A situação atual é diferente. Permanecer formalmente no PT e, ao mesmo tempo, atuar publicamente contra a estratégia definida pelo partido produz uma contradição profunda, porque enfraquece o sentido da própria organização e transmite a mensagem de que as decisões coletivas só precisam ser cumpridas quando coincidem com os interesses particulares de cada liderança.
É importante deixar claro que a orientação política do PT em Sergipe não representa a vontade isolada de um senador, de um deputado federal, de um deputado estadual ou de qualquer corrente interna do partido. Ela foi construída com a participação de suas principais lideranças, das diferentes tendências que compõem o PT, debatida e aprovada pela Direção Estadual, referendada pela Direção Nacional e em plena sintonia com a estratégia política conduzida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o fortalecimento do campo democrático. Trata-se, portanto, de uma decisão coletiva, fruto de um processo democrático, de debates políticos e de uma leitura compartilhada da conjuntura nacional. Quando uma liderança pública decide agir em sentido contrário, não está apenas divergindo de dirigentes específicos ou de uma corrente partidária. Está, sobretudo, questionando a legitimidade das instâncias democráticas do Partido, relativizando a autoridade das decisões coletivamente construídas e enfraquecendo um dos princípios fundamentais que sempre distinguiram o PT: o respeito às deliberações de sua organização partidária.
Outro aspecto preocupante é o surgimento de centros políticos paralelos, capazes de influenciar dirigentes e mandatários do PT por fora das decisões da organização. No caso do prefeito de Simão Dias, Cristiano Viana, a percepção que se transmite à opinião pública é de que sua orientação política depende mais da influência do ex-governador Belivaldo Chagas do que das deliberações do próprio Partido dos Trabalhadores. Não se trata de negar a experiência, a importância ou o direito de Belivaldo de participar da política sergipana. O problema é permitir que uma liderança que não pertence ao PT passe a funcionar, na prática, como se fosse uma instância de direção do partido.
Caso essa lógica seja aceita como normal, as consequências serão profundas. A Executiva Estadual perderá sua função dirigente, as resoluções partidárias deixarão de produzir efeitos concretos e cada grupo passará a construir seus próprios acordos, alianças e candidaturas. O PT deixará de atuar como um sujeito político coletivo e se transformará em uma simples reunião de projetos pessoais, unidos apenas pelo uso da mesma legenda. Nesse ambiente, a militância perde importância, as instâncias deixam de ser respeitadas e o partido passa a existir somente durante os períodos eleitorais.
É por essa razão que a Executiva Estadual precisa assumir plenamente a responsabilidade política que lhe cabe. Não para perseguir, humilhar ou constranger publicamente qualquer liderança, muito menos para impedir o direito à divergência, que faz parte da tradição democrática do PT. Sua tarefa deve ser convocar essas lideranças para um debate político sério, franco, transparente e institucional, no qual possam apresentar suas posições e ouvir com clareza a orientação definida pelo partido. O direito de divergir precisa ser preservado, mas ele não pode ser confundido com o direito de ignorar decisões coletivas e atuar como se o partido não tivesse regras, direção ou estratégia.
Convocar essas lideranças para o debate é também uma forma de proteger o próprio partido. A ausência de uma posição clara por parte da Executiva pode ser interpretada como fraqueza, omissão ou aceitação dos movimentos realizados à margem das instâncias. Quando a direção deixa de exercer seu papel, outras lideranças, inclusive externas ao PT, passam a ocupar esse espaço e a funcionar como centros paralelos de decisão. Esse processo, se não for enfrentado politicamente, pode comprometer a unidade partidária e produzir consequências muito maiores do que uma divergência eleitoral localizada.
O PT sempre teve conflitos e divergências. Sua força nunca esteve na ausência de diferenças, mas na capacidade de debater, construir sínteses e transformar posições distintas em unidade política. Foi dessa forma que se tornou o maior partido de esquerda da história do Brasil, chegou ao governo federal, enfrentou perseguições e liderou a reconstrução de uma ampla frente democrática. Nenhuma dessas conquistas teria sido possível se cada liderança tivesse colocado seu projeto pessoal acima das decisões coletivas.
O verdadeiro desafio do PT em Sergipe, portanto, não consiste apenas em administrar uma divergência eleitoral ou resolver um conflito entre algumas lideranças. O que está em jogo é saber se o partido continuará sendo guiado por sua história, por sua militância, por suas instâncias e por um projeto coletivo, ou se permitirá que interesses individuais, acordos locais e influências externas passem a definir seus rumos. Essa escolha terá consequências não apenas para as eleições de 2026, mas para o futuro da própria organização partidária em Sergipe.
Num momento histórico em que forças autoritárias e fascistoides voltam a ameaçar a democracia no Brasil e em várias partes do mundo, a esquerda democrática precisa permanecer organizada, unida e capaz de dialogar com os setores democráticos de centro. Essa unidade mais ampla, no entanto, não pode ser construída à custa do enfraquecimento dos partidos ou da perda de sua identidade. Ao contrário, somente organizações fortes, democráticas e respeitadas terão condições de construir alianças duradouras e enfrentar os desafios colocados pela extrema direita.
A democracia não se sustenta apenas pela realização periódica de eleições. Ela depende da existência de partidos fortes, instituições respeitadas, sindicatos atuantes, movimentos sociais organizados e cidadãos capazes de participar das decisões sobre os destinos do país. Preservar a democracia interna, a unidade política e a autoridade das instâncias do Partido dos Trabalhadores não é apenas uma tarefa dos dirigentes. É uma responsabilidade histórica de toda a militância e de todos aqueles que ajudaram a construir essa organização.
*Assessor da Secretaria-Geral da Presidência da República (SGPR), fundador do Partido dos Trabalhadores em Sergipe, ex-dirigente da CUT/SE, ex-presidente do Sindicato dos Mineiros de Sergipe.
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