
Por Valter Joviniano de Santana Filho*
Há muitos anos, ainda estudante, ouvi de um professor algo que nunca esqueci. Ele dizia que era possível ensinar muita gente a repetir corretamente um procedimento. A diferença aparecia quando algo saía do esperado. Era naquele momento que se sabia quem, de fato, estava preparado.
Com o tempo, entendi que aquela frase dizia muito mais sobre formação profissional do que sobre qualquer procedimento específico.
A teoria é indispensável. Não existe boa prática sustentada na falta de conhecimento. É preciso estudar, compreender fundamentos, conhecer técnicas, métodos e conceitos. Mas chega um momento em que saber formal não basta. O profissional precisa ser capaz de usar aquilo que sabe diante de uma situação concreta. Talvez esteja aí um dos grandes desafios da educação superior hoje.
Durante muito tempo, organizamos boa parte da formação a partir da transmissão de informações. O professor ensinava, o aluno estudava e uma prova verificava o que havia sido aprendido. Esse modelo teve valor e formou gerações de excelentes profissionais. Mas o mundo mudou.
Hoje, a informação está disponível de forma quase instantânea e em uma quantidade que seria inimaginável há poucas décadas. O desafio já não é encontrar a informação. É saber selecioná-la, compreendê-la, relacioná-la com outras informações e, principalmente, transformá-la em ação.
Na saúde, essa discussão fica muito evidente. Uma pessoa pode conhecer profundamente uma doença, saber protocolos, medicamentos e condutas e, mesmo assim, ter dificuldade para tomar uma decisão diante de um paciente real. Porque o paciente real não chega em capítulos. Ele traz história, contexto, dúvidas, medo e, muitas vezes, problemas que não seguem exatamente o roteiro aprendido.
É nesse encontro entre o conhecimento e a realidade que a competência profissional começa a ser construída. Por isso, acredito tanto na relação entre ensino e serviço. E não estou falando apenas da formação em saúde.
Um estudante de Direito precisa aprender a interpretar a norma diante da complexidade da vida. Um futuro professor precisa transformar conhecimento em aprendizagem numa sala formada por pessoas diferentes. Um engenheiro precisa decidir considerando recursos, riscos e consequências. Um gestor precisa compreender que os problemas reais raramente se manifestam organizados em uma planilha.
A realidade tem uma capacidade extraordinária de fazer perguntas que a sala de aula, sozinha, nem sempre consegue formular. Mas colocar o estudante diante da prática também não é suficiente.
Existe uma diferença importante entre fazer e aprender com aquilo que se faz. A repetição mecânica de uma atividade pode produzir velocidade e até certa segurança. Não necessariamente produz competência. O treinamento efetivo, aquele que realmente forma, exige supervisão, orientação, desafio progressivo, feedback e reflexão.
É preciso perguntar por que aquela decisão foi tomada. O que poderia ter sido feito de outra forma. Quais eram os riscos. Que informação faltou. Como agir quando a situação deixa de seguir o roteiro esperado. Volto, então, àquela advertência que ouvi ainda estudante.
Quando tudo acontece como previsto, muitas atividades profissionais acabam rotineiras. O diferencial aparece quando algo muda. Quando o paciente complica. Ou quando o projeto encontra uma variável que ninguém havia considerado, quando uma estratégia de ensino não funciona. Quando o processo falha. Quando a resposta pronta já não responde ao problema. Nesses momentos, decorar uma informação não resolve.
É preciso mobilizar conhecimento, experiência, capacidade de análise, comunicação, equilíbrio e julgamento. Acima de tudo isso, é preciso estar preparado para decidir.
Talvez por essa razão, as chamadas “residências” tenham se tornado referências tão importantes na formação em saúde. Não apenas pela quantidade de horas dedicadas, mas pela imersão. O profissional em formação acompanha diferentes situações, toma decisões sob supervisão, recebe orientação, observa profissionais mais experientes e volta a enfrentar problemas semelhantes. Pouco a pouco, ele constrói autonomia.
Não se trata apenas de fazer mais vezes. Trata-se de aprender com aquilo que se faz. Consequentemente, nos tempos atuais, o desafio da educação superior é não esperar a pós-graduação ou a entrada no mercado de trabalho para iniciar esse processo.
A graduação precisa aproximar o estudante, de forma responsável e progressiva, das situações que ele encontrará na vida profissional. Os laboratórios são fundamentais. A simulação permite treinar em ambientes protegidos. A tecnologia amplia enormemente nossas possibilidades de aprendizagem. Porém, nada disso elimina a importância da realidade.
Ao contrário. Quanto melhor o estudante for preparado em ambientes protegidos, maior será sua capacidade de aprender quando estiver diante de situações reais. Neste sentido, talvez a pergunta mais honesta que uma instituição formadora possa fazer seja também a mais simples: quando a realidade exigir, aquele que formamos estará preparado para agir?
O Brasil vive um momento interessante dessa discussão. Os processos de avaliação da educação superior vêm incorporando, cada vez mais, conceitos como competências, habilidades e formação para contextos profissionais.
Na Medicina, as discussões em torno da avaliação da formação evidenciam o que o estudante é capaz de mobilizar a partir do conhecimento adquirido. Nas licenciaturas, a prática profissional ganhou espaço na avaliação. No Direito, há anos o exame profissional diferencia o conhecimento objetivo da resolução de situações ligadas ao exercício da profissão.
São modelos diferentes e nenhum instrumento, isoladamente, será capaz de captar toda a complexidade de uma profissão. Mas existe uma mensagem importante nesse movimento: já não basta perguntar apenas o que o estudante aprendeu. Precisamos discutir, com a mesma seriedade, o que ele é capaz de fazer com aquilo que aprendeu.
Todavia, é importante que se diga, essa não pode ser uma preocupação apenas do professor. Currículos, ambientes de aprendizagem, sistemas de avaliação, laboratórios, tecnologias e relações com empresas, escolas, hospitais, serviços públicos e organizações precisam dialogar com o processo formativo.
Nesse contexto educacional, é fundamental permitir que o estudante erre sob supervisão, reflita, receba orientação e tente novamente. É necessário ajudá-lo a compreender seus limites e a perceber que uma profissão exige muito mais do que respostas prontas.
No fim, é preciso fazê-lo entender que a sociedade não recebe diplomas. Recebe médicos, professores, advogados, engenheiros, fisioterapeutas, enfermeiros, gestores e tantos outros profissionais que, em algum momento, estarão diante de uma situação real e precisarão decidir o que fazer.
Formar por competências não é mudar o nome de uma disciplina. Também não é simplesmente aumentar o número de horas práticas de um curso. É construir experiências de aprendizagem nas quais o conhecimento faça sentido.
*Diretor de Relações Institucionais do Grupo Tiradentes e ex-Reitor da UFS.
O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.