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17 de maio de 2026
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A Igreja Católica e a comunidade LGBTQIAPN+: os limites da “escuta” e do “acolhimento”

Por Péricles Andrade* e Tiago Damasceno Pereira**

A atuação de coletivos religiosos pelas disputas pela moralidade pública no Brasil contemporâneo tornou-se um dos elementos centrais da dinâmica política e social. Grupos religiosos, especialmente segmentos evangélicos conservadores, passaram a atuar intensamente na esfera pública, buscando influenciar debates sobre família, sexualidade, educação, direitos reprodutivos e costumes. Nesse contexto, a religião deixa de ocupar apenas o espaço privado da fé e assume um papel político ativo, defendendo a ideia de que os valores de uma matriz religiosa devem orientar decisões do Estado e da sociedade. Essa atuação é fortalecida pela mobilização de identidades religiosas, pela presença de lideranças religiosas na política institucional e pela construção de discursos que associam pautas progressistas a ameaças à ordem moral e familiar naturalizados.

As disputas pela moralidade pública refletem tensões entre grupos religiosos conservadores e movimentos sociais progressistas, transformando a moralidade em um campo de disputa simbólica e política. Temas como diversidade de gênero, direitos da população LGBTQIAPN+ e educação sexual são frequentemente apresentados por setores conservadores como sinais de decadência moral, produzindo estratégias de “pânico moral” que mobilizam eleitores e fortalecem agendas conservadoras. Em contrapartida, movimentos progressistas defendem a ampliação de direitos civis e o reconhecimento da diversidade como fundamentos da democracia contemporânea. Nesse cenário, igrejas e lideranças religiosas ampliam sua influência sobre o debate público e o comportamento eleitoral, enquanto o avanço de valores confessionais em políticas públicas intensifica debates sobre os limites da laicidade do Estado e o equilíbrio entre liberdade religiosa, pluralismo e democracia no Brasil.

Mas recentemente, ocorreram duas sinalizações da Igreja Católica em relação às pautas LGBTQIAPN+, ambas no contexto do pontificado de Leão XIV, iniciado em maio de 2025. Em primeiro lugar, a decisão da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) de nomear, no final de 2025, o bispo de Jundiaí como responsável nacional pelo acompanhamento de pastorais LGBTQIAPN+ representou um marco inédito na trajetória da Igreja Católica no país. Dom Arnaldo Carvalheiro Neto é considerado referencial para o acompanhamento pastoral de grupos católicos que fazem parte da comunidade LGBTQIAPN+ (Ver: https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/noticia/2025/11/29/bispo-de-jundiai-e-nomeado-representante-da-comunidade-lgbtqiapn-no-brasil-amor-da-igreja-nao-exclui-ninguem.ghtml. Acesso em: 08 maio 2026).

Em maio de 2026, Vaticano publicou um relatório inédito que promove a inclusão da comunidade LGBTQIA+, ao reunir depoimentos de fiéis sobre suas trajetórias espirituais. O texto condena explicitamente as chamadas terapias de conversão e reconhece que a Igreja contribuiu para o isolamento e o preconceito sofrido por essas pessoas. Ao apresentar relatos pessoais, o documento reforça a compreensão da orientação sexual como característica intrínseca e não como patologia, desafiando visões tradicionais de setores conservadores. Essa iniciativa integra um movimento de modernização que busca substituir o julgamento pelo acolhimento pastoral e pela justiça social (SILVA, Junio. Novo documento do Vaticano fala de inclusão e critica ‘cura gay’. Correio Braziliense, 6 maio 2026. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/mundo/2026/05/7414022-novo-documento-do-vaticano-fala-de-inclusao-e-critica-cura-gay.html. Acesso em: 8 maio 2026).

Contudo, do ponto de vista sociológico, esse processo pode ser entendido apenas como sinal de abertura espiritual ou transformação doutrinária? Em parte. Tais posicionamentos da Igreja Católica em relação a escuta e ao acolhimento das pessoas LGBTQIA+ devem ser analisados à luz das disputas de poder simbólico, da concorrência entre tradições religiosas, da reconfiguração contemporânea das identidades de gênero e sexualidade e da busca institucional pela preservação da legitimidade da Igreja.

Nesse sentido, as tensões na Igreja Católica no Brasil em torno de gênero e sexualidade manifestam-se por meio de um embate entre três grandes setores: os ultraconservadores, o centro moderado (representado pela CNBB) e os grupos progressistas. Essa dinâmica é marcada por disputas conceituais, alianças políticas e reações ao pontificado do Papa Francisco. O debate sobre “ideologia de gênero”, por exemplo, envolve uma disputa política e cultural em que setores conservadores da Igreja e aliados evangélicos utilizam o termo para criticar teorias de gênero e pautas LGBTQIAPN+, defendendo uma visão de “família tradicional” e valores morais considerados naturais. Já grupos progressistas e pastorais defendem maior inclusão e reconhecimento da diversidade. Nesse cenário, organizações como a Renovação Carismática Católica e o Opus Dei aparecem associadas a posições mais conservadoras, enquanto a CNBB atua como instância de mediação entre essas correntes internas, buscando equilíbrio entre temas morais e sociais. O pontificado de Papa Francisco (2013–2025) intensificou essas tensões ao adotar uma linguagem mais pastoral e inclusiva, gerando resistências de setores mais tradicionais e interpretações divergentes sobre sua orientação. Ao mesmo tempo, a disputa se amplifica nas redes sociais, onde influenciadores religiosos e figuras políticas, como o Padre Paulo Ricardo e a deputada Chris Tonietto (PL-RJ), contribuem para a consolidação de um “ecumenismo de direita” em torno de pautas morais comuns entre católicos e evangélicos conservadores (Camurça, 2025).

Diante destas duas sinalizações católicas recentes, acreditamos que, apesar da euforia de parte da mídia e das redes sociais, não teremos mudanças substancias em relação as perspectiva do Vaticano em relação às pautas de gênero e sexualidade. Vale ressaltar que estamos revistando o tradicional posicionamento oficial católico sobre a homossexualidade baseia-se em uma distinção fundamental entre atos e pessoas, conforme consta no Catecismo da Igreja Católica. Mais do que um compêndio doutrinário, o documento funciona como um mecanismo de gerenciamento moral da sociedade, ao organizar valores considerados universais e influenciar percepções sobre comportamentos, identidades e condutas sociais.  De acordo com o Catecismo, os “atos homossexuais” são considerados “intrinsecamente desordenados” e “contrários à lei natural”, sendo, portanto, moralmente rejeitados pela doutrina oficial. Ao mesmo tempo, a Igreja reconhece a existência de pessoas com tendências homossexuais e afirma que elas devem ser tratadas com “respeito, compaixão e delicadeza”, evitando qualquer forma de discriminação injusta. Essa posição combina, portanto, a condenação moral das práticas sexuais não heteronormativas com uma orientação pastoral de acolhimento, associada ao chamado à castidade como forma de vida cristã (Catecismo, 1999).

Nesse contexto, o Catecismo da Igreja Católica desempenha um papel central como instrumento de sistematização e legitimação da moral católica, funcionando como dispositivo de orientação normativa para fiéis e instituições. Pelo que se vê, temos um exemplo de como as religiões buscam exercer influência na organização moral da sociedade ao moldarem a forma como os indivíduos pensam, agem e interpretam o mundo. Por meio de crenças, ensinamentos e rituais, valores e regras são sacralizados e universalizados, sendo reconhecidos como legítimos pelos fiéis. Esse poder é exercido principalmente por líderes e instituições religiosas, tal como a Igreja Católica, responsáveis pelo controle dos chamados “bens de salvação”, isto é, dos conhecimentos e práticas considerados necessários para alcançar o sagrado. Desse modo, a religião contribui para a manutenção da ordem social ao reforçar comportamentos e valores que favorecem a continuidade das estruturas existentes, muitas vezes sem que os indivíduos percebam seu caráter histórico e socialmente construído (Andrade Júnior, Silveira, Pessoa, 2019).

Isso não significa que esses posicionamentos contidos no Catecismo não sejam capitais em disputas no campo católico. A possibilidade de posicionamentos mais “arrojados” da Igreja Católica em relação às pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ é marcada por uma tensão constante entre abertura pastoral e permanência de limites doutrinários. Sob o pontificado de Papa Francisco, observaram-se gestos simbólicos e discursivos de maior acolhimento. O Papa utilizou falas de forte impacto simbólico, como “quem sou eu para julgar” e a afirmação de que as tendências homossexuais “não são um pecado”. Além disso, destacaram-se as nomeações de lideranças mais abertas ao diálogo pastoral, como o cardeal Matteo Zuppi (italiano da comunidade de Santo Egídio) e o bispo Dom Antônio Carlos Cruz Santos (bispo diocesano de Petrolina, Pernambuco), que sinalizam uma ampliação do cuidado pastoral com essa população.

No entanto, enquanto os documentos oficiais do Sínodo da Família – assembleia de bispos convocada pelo Papa para debater os desafios pastorais da família no contexto contemporâneo – pregam a “misericórdia e não a condenação”, ainda se reafirmam a indissolubilidade do matrimônio heterossexual, mantendo a tensão entre a acolhida pastoral e a doutrina vigente. O “Ecumenismo de Direita”, por exemplo, é uma perspectiva política crescente que une católicos e evangélicos conservadores contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Essa coalizão foca na defesa do “patrimônio moral judaico-cristão” e atua ativamente no Legislativo para barrar pautas de diversidade.

Pelo exposto, apesar de certa euforia de parte da mídia, acredito que no âmbito dos coletivos da comunidade LGBTQIAPN+ as sinalizações recentes da Igreja Católica quanto a “escuta” e ao “acolhimento” foram interpretadas com cautela. Seria oportuno ouvir as lideranças dos seus respectivos coletivos. Possivelmente há uma percepção de que as mudanças de posicionamentos católicos em relação às pautas de gênero e sexualidade convivem com limites institucionais, como a manutenção da doutrina tradicional em documentos oficiais, a postura cautelosa do Vaticano e a resistência de setores conservadores ligados à Renovação Carismática Católica e ao Opus Dei.

Em suma, as tensões do catolicismo em relação às questões LGBT no Brasil decorrem do papel histórico das religiões cristãs na legitimação da família heteronormativa e da reprodução biológica como bases da ordem social. Embora o pontificado de Papa Francisco e  tenha promovido gestos de maior acolhimento pastoral às pessoas LGBTQIAPN+, a Igreja mantém a distinção entre o respeito à pessoa e a condenação das práticas homoafetivas, consideradas incompatíveis com a doutrina da lei natural e da procriação. Essa postura limita a inclusão plena dessa população na comunidade de fé e sustenta críticas de teólogos e movimentos inclusivos, que apontam a permanência de exclusões morais e simbólicas. Além disso, a Igreja Católica continua exercendo forte influência nos debates sobre casamento homoafetivo, adoção e outros direitos ligados à pauta LGBT, impactando também o posicionamento de outras denominações cristãs no Brasil (Santos, 2026).

Assim, o cenário geral é de uma dinâmica ambígua, em que avanços pastorais e simbólicos coexistem com forte estabilidade doutrinária e disputas internas que limitam transformações estruturais mais profundas.

Enfim, frente à euforia na esfera pública digital de uma mudança de postura católica quanto a “escuta” e ao “acolhimento” das pessoas LGBTQIAPN+, novamente vale a máxima popular, “devagar com o andor, que o santo é de barro”…

*Professor Titular da UFS. Doutor em Sociologia pela UFPE. E-mail: periclesdcs@academico.ufs.br

**Sargento da Polícia Militar do Estado de Sergipe e membro da RENOSP – Rede Nacional de Operadores em Segurança Pública LGBTQI+. Mestre em Sociologia pela UFS. E-mail: tiago_ufs_adm@hotmail.com

Referências

ANDRADE JÚNIOR, Péricles Morais de; LOEWENSTEIN, Barnabé; SILVA, Maurício Ferreira da;. Vozes evangélicas e moralidade pública conservadora em Feira de Santana, Bahia. Ponta de Lança: Revista Eletrônica de História, Memória & Cultura, São Cristóvão, v. 19, n. 37, p. 47-63, jul./dez. 2025. DOI: https://doi.org/10.61895/pl.v19i37.24378

ANDRADE JÚNIOR, Péricles Morais de; SILVEIRA, Emerson José Sena da; PESSOA, Silvério Leal. No caminho de uma teoria da religião em Bourdieu: as apropriações marxianas. Horizonte, Belo Horizonte, v. 17, n. 53, p. 775-800, maio/ago. 2019. DOI: 10.5752/P.2175-5841.2019v17n53p775.

CAMURÇA, Marcelo Ayres. “Tutti Fratelli, ma non tropo”: embates e acomodações sobre gênero e política entre conservadores e progressistas na Igreja Católica no Brasil. Religião & Sociedade, Rio de Janeiro, v. 45, n. 3, e450303, 2025. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/1984-04382025e450303

CARRANZA, Brenda. Catolicismo midiático e pânico moral. São Paulo: Ideias & Letras, 2018.

CATECISMO da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 1999.

MACHADO, Maria das Dores Campos. O ativismo cristão e as democracias contemporâneas. Rio de Janeiro: Letra e Imagem, 2020.

MACHADO, Maria das Dores Campos. Pânicos morais e a política de costumes no Brasil. São Paulo: Hucitec, 2024.

SANTOS, Alliston Fellipe Nascimento dos. “Eis que vos envio como ovelhas [coloridas] ao meio de lobos”: Histórias de vida de lideranças de igrejas evangélicas inclusivas/afirmativas e suas fronteiras com correntes conservadoras do campo evangélico brasileiro. 2026. 385 f. Tese (Doutorado em Sociologia) – Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS), Universidade Federal de Sergipe (UFS), São Cristóvão, SE, 2026.

O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.

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