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9 de abril de 2026
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Entre números e escolhas: como se constrói a excelência acadêmica

Por Lucindo José Quintans Júnior*

A Revista Pesquisa FAPESP trouxe, em sua mais recente análise da Avaliação Quadrienal da CAPES, um dado que merece ser lido com atenção e, talvez, com algum orgulho discreto: o Brasil ampliou em 21% o número de programas de pós-graduação com notas 6 e 7, aqueles que habitam o restrito território da excelência. Não é pouca coisa. Em um país que frequentemente trata a ciência como gasto e não como investimento, esse crescimento diz mais do que aparenta. Diz que, apesar de tudo, a pós-graduação resistiu. E mais, avançou. Recomendo a rápida e agradável leitura da matéria intitulada “Avaliação Quadrienal da Capes registra avanço em programas de pós-graduação de excelência” que pode ser acessada no link: https://revistapesquisa.fapesp.br/avaliacao-quadrienal-da-capes-registra-avanco-em-programas-de-pos-graduacao-de-excelencia/

Nesse mapa em expansão, a Universidade Federal de Sergipe (UFS) não aparece como coadjuvante. Pelo contrário, ocupa hoje uma posição (24ª maior e melhor pós-graduação do país) que não se constrói por acaso, entre as instituições com maior impacto científico do país, especialmente na área de Ciências da Saúde (https://www.ufs.br/conteudo/64141-ufs-e-a-instituicao-de-maior-impacto-do-brasil-em-pesquisas-de-ciencias-da-saude), e entre as que mais avançaram em qualidade e consistência nos últimos anos. Não se trata de um ponto fora da curva, mas de uma curva que foi, pacientemente, desenhada.

Figura – Distribuição das notas dos programas de pós-graduação nas 30 instituições de ensino superior com maior número de PPGs no Brasil, segundo a Avaliação da CAPES. Observa-se a concentração de programas nos conceitos 4 e 5, com expansão progressiva das notas 6 e 7, indicativas de excelência. A posição (24ª) da UFS nesse cenário evidencia sua consolidação recente e avanço qualitativo no sistema nacional de pós-graduação. Fonte: CAPES; adaptado de Revista Pesquisa FAPESP ( https://revistapesquisa.fapesp.br/avaliacao-quadrienal-da-capes-registra-avanco-em-programas-de-pos-graduacao-de-excelencia/).

Os números ajudam, mas não explicam tudo. Entre os programas da UFS, mais de 90% melhoraram ou mantiveram seus conceitos ao longo dos últimos ciclos avaliativos (https://www.destaquenoticias.com.br/planejamento-na-adversidade-consolidacao-no-compromisso-excelencia-nos-resultados-a-pos-graduacao-da-ufs-no-quadrienio-2021-2024/). Há, nisso, um padrão. E padrão, em ciência e em gestão, não é sorte, é método, é repetição, é insistência. Em um quadriênio atravessado por cortes orçamentários severos, pela instabilidade do próprio sistema de avaliação e pelos efeitos ainda recentes da maior pandemia do século (COVID-19), planejar deixou de ser uma virtude administrativa e passou a ser um ato de resistência. Vencemos!

Mas nenhuma instituição cresce sozinha. O que se revela por trás desses resultados é uma engrenagem que funcionou, por vezes sob ruído, quase sempre sob pressão e, não raro, diante de críticas injustas. Coordenadores de programas, docentes, discentes, secretários, técnicos e colaboradores terceirizados assumiram, muitas vezes longe dos holofotes, a tarefa mais sensível da pós-graduação: transformar a vida acadêmica em evidência mensurável. Porque, na CAPES, o que não está bem descrito simplesmente não existe.

Nesse contexto, o alcance do conceito institucional máximo (nota 5 no MEC. https://www.ufs.br/conteudo/73855-ufs-tem-nota-maxima-no-recredenciamento-institucional-do-mec) pela UFS não é um evento isolado, mas a expressão de um processo consistente de qualificação institucional. O avanço da pós-graduação foi sustentado por uma melhoria articulada da graduação, pela expansão da extensão e pelo fortalecimento da pesquisa, consolidando um sistema acadêmico mais integrado, maduro e eficiente.

Esse movimento só foi possível por uma convergência institucional rara. A gestão superior e as demais pró-reitorias compreenderam que a pós-graduação não é um apêndice, mas um eixo estruturante da universidade. Investiram, organizaram, apoiaram e, sobretudo, confiaram. A POSGRAP, nesse cenário, cumpriu o papel que lhe cabia: não o de protagonista solitário, mas o de articulador, indutor e guardião de processos que, quando bem conduzidos, produzem exatamente isso: resultados consistentes.

Talvez o mais interessante desse percurso seja o que ele sugere sobre o futuro. A UFS deixou de depender de apostas isoladas e passou a operar como sistema. Um sistema que aprende, corrige, amadurece e avança. Em tempos em que a excelência costuma ser tratada como exceção, há algo de notável em vê-la se tornar rotina.

E, no fim das contas, é disso que se trata. Não de um resultado pontual, mas de um processo. Não de um prêmio, mas de uma construção. Porque, como bem lembram os melhores textos e as melhores universidades, o importante nunca foi chegar. Foi saber como chegar.

*Prof. Dr. Lucindo José Quintans Júnior. Professor Titular no Departamento de Fisiologia da Universidade Federal de Sergipe (UFS). lucindo@academico.ufs.br

O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.

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