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19 de fevereiro de 2026
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O poder religioso e os engendramentos eleitorais no Brasil

Por Péricles Andrade*

Em diálogos com algumas pessoas, tenho constatado a recorrência de processos de silenciamento e expulsões devido às escolhas políticas, sobretudo decorrente da radicalização religiosa, que gera embates profundos dentro das próprias instituições, ocasionando conflitos internos e marginalizações. Em uma conversa informal, por exemplo, um fiel da Igreja Batista em Aracaju, bancário aposentado, fundador e militante de um partido de esquerda desde a década de 1980, me confidenciou que em algumas ocasiões teve sua fala silenciada pela liderança religiosa nas assembleias do Conselho Congregacional desde 2018, praticamente sendo “expulso” do mesmo por defender seus posicionamentos políticos nos debates nas reuniões da igreja. O fiel praticamente foi “convidado” à auto-desfiliação depois de décadas congregando nessa instituição. Tornou-se, por tensões políticas, mais um indivíduo “sem religião”, categoria que abrange 9,28% dos brasileiros segundo o Censo de 2022 realizado pelo IBGE.

Por conta de posicionamentos internos radicais, a Igreja Católica também vive tensões entre setores progressistas e reacionários, evidenciadas, dentre outros, em ataques à Campanha da Fraternidade de 2021 e ao Sínodo da Amazônia. O Instituto Plínio Correa de Oliveira (IPCO) atuou contra a pauta ecológica, classificando-a como “psicose ambientalista”. Enquanto grupos cristãos aperfeiçoam sua influência institucional, religiões de matriz afro-brasileira sofrem uma criminalização sistemática de suas liturgias, muitas vezes sob os pretextos ambientais em unidades de conservação (Carranza, Santos e Jácomo, 2021).

Em algumas temporalidades e tabuleiros, praticamente não há separação entre a missão eclesial e a dinâmica da política nos espaços religiosos, o que leva instrumentalização eleitoral do poder religioso, sobretudo a partir da metáfora das igrejas como “máquinas eleitorais” de sustentação de candidaturas. A partir das eleições no Brasil na década de 1990, cada vez mais as candidaturas buscam apoio de lideranças religiosas cristãs, com a presença visível em templos, buscando votos no “mercado” de eleitores. Por outro lado, há de se destacar também o desejo de ingresso efetivo das denominações religiosas na vida política, com lançamento de candidaturas de religioso-políticos e o apoio à político-religiosos (Campos, 2006), o que impulsionou também o desejo dos partidos políticos em atuarem em parcerias nesses universos religiosos em franca politização. As engrenagens passam a operacionalizar como apoio as candidaturas nessa simbiose entre os poderes político e religioso, com a oferta de ampla margem de poder de barganha nas negociações partidárias, o apoio partidário, as declarações de votação das igrejas e das organizações religiosas e o envolvimento explicito de lideranças políticas, além do exercício da sua influência religiosa para intervir na escolha eleitoral de seus fiéis e a “demonização” de algumas forças políticas e sociais que representariam “ameaças” conforme suas perspectivas teológicas.

Vejamos um exemplo de engendramento religioso-político. Em 2018, ano de uma disputada eleição presidencial no Brasil, nas Assembleias de Deus as “lições bíblicas” abordaram, durante o período pré-campanha (de abril a junho), temas considerados importantes pelo o fiel pentecostal e geralmente discutidos pelos candidatos à presidência da república. Um grande número de fiéis em todo o país estudou, domingo após domingo, sobre os valores cristãos e as formas como as questões morais devem ser enfrentadas pela população pentecostal. As discussões apresentadas durante as lições foram amplamente debatidas. Meses após, durante a campanha presidencial e o pleito eleitoral, pudemos observar pontos de convergência e outros contraditórios na hora da escolha do candidato. As pesquisas de opinião pública dos institutos apontaram que, dentre as religiões presentes no Brasil, os evangélicos, especialmente os pentecostais, em sua maioria, optaram pelo então candidato Jair Messias Bolsonaro (PSL), que, apesar de convergir com o pensamento pentecostal assembleiano em alguns pontos, divergia e se distanciava drasticamente em muitos outros (Xavier, 2019). Desse modo, Bolsonaro, de origem católica, mas com esposa e filhos evangélicos, se relacionou fortemente com a bancada evangélica, integrou “a tropa de choque cristã contra a criminalização da homofobia, a união civil de pessoas de mesmo sexo e em defesa da ‘cura gay’, dos estatutos do nascituro e da família e do programa Escola sem Partido”.

Obviamente que esses engendramentos se ampliam durante os períodos eleitorais. Enquanto “máquinas” as igrejas deslocam a fonte de seu poder político da mensagem religiosa para a sua estrutura organizacional e institucional. São adotadas diversas estratégias. A primeira é a mobilização de mão-de-obra e “recursos humanos”. As igrejas fornecem voluntários e “obreiros” que atuam de forma análoga a cabos eleitorais em seus bairros e comunidades. Esses obreiros utilizam tanto o linguajar religioso quanto afinidades extrarreligiosas para convencer não apenas os fiéis, mas também moradores do entorno que não compartilham da mesma fé. Em segundo lugar, as redes de contatos e capital social. As instituições mobilizam uma rede de profissionais dentro da própria congregação — como donos de gráficas, advogados e proprietários de carros de som — que fornecem serviços essenciais para as campanhas, permitindo que as candidaturas alcancem círculos distantes da comunidade religiosa. Em terceiro, o poder financeiro e financiamento. As igrejas podem funcionar como canais de recursos financeiros para campanhas, utilizando dízimos e ofertas que não sofrem o mesmo rigor de fiscalização imposto a instituições seculares como partidos e ONGs. Esse fluxo financeiro é descrito como um “verdadeiro caixa dois de difícil fiscalização”. Os acessos a grandes somas de dinheiro e a capacidade de reunir multidões dão às lideranças um poder de persuasão e financiamento único. Por fim, o uso do espaço físico e da mídia.  Templos são frequentemente utilizados como plataformas de campanha, onde materiais de propaganda são distribuídos e candidatos(as) são apresentados(as). Além disso, grandes denominações utilizam seus próprios braços midiáticos para oferecer visibilidade exclusiva aos políticos “ungidos” (Prandi e Bonato, 2019).

Lembro que em 2014 estive em um culto celebrativo em uma Assembleia de Deus em Aracaju. Era véspera da votação do 1º turno e aniversário da esposa do pastor. Durante o longo culto festivo, as lideranças terminavam suas falas lembrando do “salmo escolhido” naquela noite. Coincidentemente, o “salmo [número]:[versículo]” eram o mesmo número de inscrição do pastor assembleiano que concorria a reeleição para o cargo de deputado estadual.

Mas, o que está sendo “negociado” e pactuado? Em geral, tem se destacado a disposição da atuação religiosa nas diretrizes das políticas estatais, processos e debates legislativos e disputas/consultas judiciais, com o fim de guiar ou impelir a opinião e a tomada de decisões em certas direções. Essas pactuações, de certo modo, envolvem bens religiosos “negociáveis”, com condicionamentos eclesiais a partir da não-implementação das pautas classificadas como “progressistas”. A primeira linha de forca refere‑se a qual papel deve ter o Estado na economia. Cresceu nos últimos anos a critica a ele, mais especificamente as políticas de proteção social. A despeito do reconhecimento parcial dos benefícios destas ultimas, elas teriam gerado acomodação das pessoas e fidelização a um partido político. A ideia de esforço individual e a iniciativa privada são valorizadas em contraposição as políticas compensatórias e identitarias. A segunda linha de forca refere‑se a uma serie de movimentações políticas, demandas coletivas e medidas governamentais que apontam para posturas e ações mais repressivas e punitivas dos aparelhos de segurança do Estado. Boa parte dos que falam em nome dos evangélicos, por exemplo, apoia uma maior ação repressiva dos aparelhos de segurança do Estado. Cerca de dois terços dos deputados evangélicos votaram a favor da redução da maioridade penal (Almeida, 2019).

Temos praticamente um objeto de negociação, talvez até “inegociável”, sobretudo os segmentos que adotam perspectivas teológicas conservadoras: a moralidade pública. Essas lideranças religiosas se empenham na defesa de representações naturalizadas da moral, da sexualidade e da concepção de vida. Dito de outro modo, há uma centralidade nos discursos políticos marcados por temas da moral religiosa, com a evocação de símbolos sagrados e a pressão da parte dos religiosos para que os(as) candidatos(as) as candidaturas assumam publicamente certos compromissos morais e políticos favoráveis aos interesses destas igrejas (Mariano, 2011).

Desde as campanhas eleitorais de 2010 no Brasil a polarização política recente colaborou para consolidar uma direita cristã. Antipetismo e antiesquerdismo passaram a nortear crescentemente posições políticas de líderes e deputados evangélicos, sobretudo a partir de 2013. O apoio para a centro-esquerda, representada nos governos Lula e Dilma, em aliança com o PRB e o PMDB nos anos 2000, foi alterado com a articulação do impeachment em 2016, numa nova aliança neoliberal de direita que reuniu os partidos derrotados. Uma derivação dessa fase a participação política maciça de evangélicos pentecostais na candidatura de Jair Bolsonaro em 2018, espectro político de extrema direita cristã que se consolidou na eleição de Bolsonaro, assumiu a agenda moral como mote de campanha e se empenha na construção da ideia de uma nação cristã (Burity, 2020). Os evangélicos cada vez mais, passaram a se identificar como conservadores, a se aliar a grupos de direita, a atacar os direitos humanos, a educação sexual nas escolas, as políticas anti-homofóbicas (Mariano e Gerardi, 2019).

A partir da sacralização da família tradicional, com ênfase nas questões relativas ao corpo, ao comportamento e aos vínculos primários. as lideranças religiosas pactuam contra a diversidade de gênero, sexual e de costumes e aqueles que se colocam do lado das transformações próprias das sociedades inclusivas: a reivindicação e a conquista da igualdade de direitos do cidadão, o tratamento político e social isonômico do ponto de vista do Estado e de suas políticas públicas (Machado, 2020).

Embora a legislação eleitoral brasileira proíba explicitamente a veiculação de propaganda eleitoral em templos religiosos (Art. 37 da Lei nº 9.504/1997, “Lei das Eleições”), no Brasil não há uma matéria jurídica que tipifique o “abuso de poder religioso”, que combina abuso de poder econômico com abuso de autoridade e o uso de simbolismo religioso para atrelar escolhas políticas a desígnios divinos. Porém, as condutas são enquadradas como abuso político, econômico ou de autoridade quando há captura ilícita de sufrágio ou desequilíbrio. O Ministério Público Federal (MPF) atua, embora com poucos resultados significativos, na fiscalização e no combate ao abuso de poder religioso em eleições e processos eleitorais, especialmente quando igrejas ou líderes influenciam a seleção para favorecer os candidatos, violando a laicidade estatal e a igualdade no pleito (Disponível: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2023-09/mpf-cobra-acao-contra-abuso-religioso-na-eleicao-do-conselho-tutelar). Em 2023, o MPF cobrou medidas urgentes do Conanda para prevenir abusos religiosos nas eleições de conselheiros tutelares, após denúncias de igrejas no Rio de Janeiro orientando votos em candidatos alinhados a visões conservadoras de família (Disponível:  https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2023/09/30/mpf-pede-ao-conanda-medidas-de-combate-ao-abuso-de-poder-religioso-nas-eleicoes-do-para-conselhos-tutelares.ghtml).

Considerando as tendências verificadas nos últimos pleitos eleitorais, teremos nas eleições de 2026 o envolvimento explicito de lideranças políticas no exercício da sua influência religiosa para intervir na escolha eleitoral de seus fiéis e na “demonização” de algumas forças políticas e sociais que representam “ameaças”.  Nas disputas eleitorais no Brasil em 2026, possivelmente as questões ligadas à moralidade pública deverão estar presente nos debates na arena política. Vamos às discussões, mas sem santificações ou demonizações de candidaturas.

Penso que os espaços religiosos não estão alheios ao universo político. Na contemporaneidade estão cada vez mais evidentes os processos de porosidade da sociedade e do sistema político em absorver certas estratégias/intervenções do mundo religioso, assim como a crescente relevância e envolvimento de grupos e organizações religiosos nos assuntos públicos (Burity, 2015).

Que a política de fato esteja sendo discutida nas vivências religiosas. Que os espaços religiosos sejam de pluralismo político, com conversação constante, não necessariamente entre iguais politicamente. Que sejam na realidade, no caso dos locais de matrizes cristãs, “abrigo das ovelhas, independentes se essas ovelhas são de esquerda ou são de direita”.

*Professor Titular dos Programas de Pós-Graduação em Sociologia e Ciências da Religião da Universidade Federal de Sergipe. E-mail: periclesdcs@academico.ufs.br

Referências:

CAMPOS, Leonildo Silveira. Os políticos de Cristo – uma análise do comportamento político de protestantes históricos e pentecostais no Brasil. In: BURITY, Joanildo A. Burity; Machado, Maria das Dores Campos (orgs.). Os Votos de Deus: Evangélicos, política e eleições no Brasil. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, 2006, p. 29-89.

MARIANO Ricardo; GERARDI, Dirceu André. América Latina em 2018 e ativismo político de evangélicos conservadores. Revista USP, São Paulo, n. 120, p. 61-76, janeiro/fevereiro/março 2019.

PRANDI, Reginaldo; SANTOS, Renan William dos; BONATO, Massimo. Igrejas evangélicas como máquinas eleitorais no Brasil. Revista USP, São Paulo, Brasil, n. 120, p. 43–60, 2019. DOI: 10.11606/issn.2316-9036.v0i120p43-60. Disponível em: https://revistas.usp.br/revusp/article/view/155530. Acesso em: 12 fev. 2026.

XAVIER, Liniker. Eleições 2018 e os valores cristãos na Escola Dominical: convergências e contradições pentecostais. INTERAÇÕES, Belo Horizonte, Brasil, v . 14, n. 25, p. 96-116, jan./jun. 2019.

O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.

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