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13 de fevereiro de 2026
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O carnaval em tempos de conflito nas páginas da Revista da Semana

Por Maria Luiza Pérola Dantas Barros*

Pensar em carnaval no Brasil é, invariavelmente, pensar nas grandes festas, nos blocos que arrastam multidões de foliões, no brilho e nas cores das fantasias que, juntamente com a euforia das pessoas de diferentes idades e condições sociais, tomam as ruas por todo o país. Mas, no contexto de um conflito mundial de proporções avassaladoras, como a Segunda Guerra (1939-1945), como o Brasil vivenciou uma festa tão marcante em nossa cultura?

A Revista da Semana foi um periódico ilustrado de variedades fundado no Rio de Janeiro por Álvaro Tefé, em 1900, com o apelo popular e circulação nacional.  Durante o conflito, divulgava moda, literatura, arte e notícias, se esforçando para situar o leitor no desenrolar das inúmeras frentes de batalhas. As páginas desse periódico dariam ênfase à cobertura do carnaval carioca, por ser considerado o destaque nacional em termos de festejos já que no restante do país poucos se entregavam à comemoração “com a mesma despreoccupação allucinada e o mesmo enthusiasmo embriagado que os cariocas” (edição de 01/03/141, p. 28-29).

 Entre 1940 e 1942 é possível perceber uma constante na cobertura fotográfica voltada para apresentar ao público leitor os bailes animados da alta sociedade, com seus aglomerados de homens, mulheres e crianças sorrindo, dançando e posando para as fotos, esbanjando euforia e fantasias elaboradas. Não só os clubes, mas as ruas e praias conhecidas também eram apresentadas nas fotografias tomadas por um mar de foliões fantasiados. O carnaval seguia como a “expressão mais gloriosa da folia, da algazarra, da galhofa, da allucinação, que confunde num mesmo ambiente o garoto da rua ao circunspecto burguez” (edição de 03/02/1940, p. 24), em uma metrópole decorada em tons berrantes, “toda entregue ao prazer e á música’’  (01/03/1941, p. 29).

Em agosto de 1942, com os torpedeamentos das cinco embarcações brasileiras no litoral entre Sergipe e Bahia pelo submarino alemão U-507, responsável pela morte de mais de 600 pessoas, o Brasil declarou guerra contra o Eixo. Mesmo que a ideia de comoção nacional e da necessidade de vingar a morte daquelas pessoas tenha circulado nos periódicos, o ocorrido não impediu as comemorações carnavalescas do ano seguinte, tornando as páginas da revista um desfile de contradições a partir de então.

Um exemplo é a edição de 13/03/1943, que se abre com o texto “A loucura da guerra”, mostrando como era impossível pensar em comemorar o carnaval num momento em que havia “rios de lagrimas e torrentes de sangue; quando as cataratas do Céu se abrem em diluvios de sombras e maldições; quando, na maior parte do Mundo, há fome e frio, treva e morte” (p. 3), porém outras páginas viriam carregadas da coberturas dos bailes no teatro e nos grandes clubes da cidade, numa “parada de belezas, uma sensacional mostra de alegria” (p.15). A guerra também seria o tema para desfiles dos estudantes e das escolas de samba naquele ano, “exibindo centenas de cartazes, com legendas patrioticas ou criticas espirituosas aos ditadores eixistas” (p.20).  O carnaval não parou nem nos clubes elegantes nem em plena rua, pelo que é possível observar na cobertura divulgada. Mesmo assim, fotos das ruas desertas eram apresentadas como prova da ausência de festejos naquele ano.

As críticas continuariam a ser publicadas nos anos seguintes, juntamente com alguns modelos de fantasias, fotos dos carnavais em clubes elegantes e votos para os leitores se divertirem nas comemorações. E mesmo com os inúmeros racionamentos pelos quais o país passava em virtude da guerra, e com a morte de brasileiros nas batalhas, o carnaval continuou a ser comemorado em folguedos que excederam às melhores expectativas, com seus bailes elegantes e lotados, registrados em fotos que apresentavam pessoas alegres e bem fantasiadas, que buscavam esquecer as amarguras de mais um ano de guerra (edição de 24/02/1945).

Periódicos como a Revista da Semana nos possibilitam perceber a Segunda Guerra Mundial para além dos campos de batalhas, a partir do cotidiano da população dos países envolvidos, como o Brasil. Pela cobertura do carnaval divulgada em suas páginas, tanto é possível percebermos uma alegria popular que parecia fazer resistência ao que ocorria, quanto uma euforia que parecia alienar os frequentadores dos clubes, com suas belas fantasias, em festas lotadas, concorridas, animadas e bem servidas num contexto de crise e restrições que uma considerável parcela da população enfrentava.

*Doutoranda em História Comparada (PPGHC/UFRJ). Integrante do Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/UFS/CNPq) e-mail: perola@getempo.org

O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.

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