

Por Marcelo Farias Barreto*
Com mais de R$ 100 bilhões em investimentos da Petrobras, o novo ciclo do petróleo em águas profundas coloca Sergipe no centro da estratégia energética nacional — e expõe a urgência de decisões sobre infraestrutura, logística e planejamento de longo prazo.
Os projetos SEAPI e SEAPII não surgem de forma isolada nem circunstancial. Eles são resultado direto de uma política nacional de fortalecimento da Petrobras e de afirmação da segurança energética do Brasil, iniciada nos governos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a partir da decisão estratégica de investir na descoberta e exploração de campos de petróleo em águas profundas. Essa política foi interrompida em ciclos posteriores e retomada agora com vigor, sustentada por investimentos superiores a 100 bilhões de reais destinados à viabilização da produção, incluindo a construção de duas plataformas FPSO e a implantação de um gasoduto com mais de 70 quilômetros de extensão ligando o mar ao continente. Sem essa determinação política e estratégica do Estado brasileiro, a existência de um projeto da envergadura de SEAPI e SEAPII simplesmente não seria possível.
O início da produção dos projetos SEAPI e SEAPII representa um dos momentos mais relevantes da história econômica de Sergipe desde a década de 1960, quando o estado passou a integrar a geografia do petróleo no Brasil. A diferença central é que, agora, Sergipe ingressa definitivamente na fronteira tecnológica da produção em águas profundas, com escala industrial, alto conteúdo tecnológico e impacto econômico incomparavelmente superior ao ciclo anterior.
Com uma produção inicial estimada em cerca de 240 mil barris de petróleo por dia e mais de 16 mil m³ de gás natural, Sergipe passa a ocupar posição estratégica na indústria energética nacional. Esses números, no entanto, não devem ser lidos apenas sob a ótica da arrecadação fiscal. Eles abrem a possibilidade concreta de reorganizar cadeias produtivas, atrair investimentos privados e públicos e ampliar o mercado de trabalho qualificado, redefinindo o papel do estado na economia do Nordeste.
A experiência internacional mostra que ciclos de commodities só se convertem em desenvolvimento sustentável quando acompanhados de planejamento estratégico, institucionalidade sólida e visão de longo prazo. Sem esses elementos, a renda extraordinária tende a se dissipar, deixando poucos legados produtivos.
É nesse ponto que a infraestrutura assume papel central. A produção em águas profundas exige uma logística robusta e integrada. Rodovias, aeroporto, ferrovias e portos deixam de ser apenas meios de transporte e passam a ser ativos estratégicos da política de desenvolvimento.
A devolução ao governo federal do ramal ferroviário Propriá, hoje operado pela VLI, deveria ser tratada como oportunidade para recolocar a ferrovia no centro da estratégia econômica do estado. Sem integração ferroviária, Sergipe corre o risco de operar com custos logísticos elevados e baixa capacidade de capturar valor industrial.
O debate portuário é ainda mais sensível. O Porto de Sergipe cumpre papel relevante para a economia atual, mas apresenta limitações estruturais conhecidas, sobretudo de calado e expansão. Diante das exigências do novo ciclo do petróleo e gás, é legítimo questionar se essa infraestrutura será suficiente para sustentar operações industriais e offshore de grande porte.
Nesse contexto, o litoral sul do estado, especialmente a faixa entre as praias da Caueira e Abais, apresenta vantagens naturais relevantes, com profundidades superiores a 20 metros de calado. A hipótese de um porto de águas profundas nessa região abre a possibilidade de atrair um investidor âncora e estruturar um complexo porto-indústria-logística, em linha com experiências como o Porto do Açu, no Rio de Janeiro.
Apesar da magnitude do desafio, ainda não se observa, de forma clara e pública, um planejamento estratégico integrado por parte do governo estadual. A ausência de diretrizes consistentes amplia o risco de improvisação em um ciclo que exige antecipação e coordenação.
Também chama atenção a atuação ainda tímida das entidades empresariais. Experiências bem-sucedidas indicam que processos de desenvolvimento regional dependem de pactos institucionais amplos, que envolvam Estado, setor produtivo e sociedade civil organizada.
Universidades e centros de pesquisa são fundamentais na formação de capital humano e inovação; o setor empresarial aporta investimento e eficiência produtiva; a imprensa cumpre papel relevante na transparência e no controle social; e as entidades representativas dos trabalhadores devem participar não apenas da discussão sobre empregos, mas também da formulação de políticas econômicas mais abrangentes, como o uso estratégico dos royalties, o encadeamento produtivo e a diversificação da base econômica.
As estimativas indicam que Sergipe e seus municípios poderão receber cerca de 7 bilhões de reais por ano em royalties e participações especiais. O desafio central não é arrecadar, mas transformar essa renda em investimento estruturante, capaz de gerar competitividade, diversificação produtiva e desenvolvimento de longo prazo.
SEAPI e SEAPII colocam Sergipe diante de uma escolha estratégica. O petróleo, por si só, não garante desenvolvimento. O que fará a diferença é a capacidade de planejar, escolher e executar políticas públicas à altura dessa oportunidade histórica.
*Administrador de Empresas, especialista em desenvolvimento regional.
O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.
1 Comment
Muito bom o artigo, Marcelo.
✊