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Brigitte Bardot: um mito entre a liberdade e suas contradições

Por Kate Constantino Oliveira*

A notícia da morte de Brigitte Bardot reacende um debate que atravessa décadas: o impacto duradouro de uma mulher que, mais do que estrela de cinema, tornou-se um ícone da cultura pop e um símbolo — ambíguo, por vezes incômodo — da emancipação feminina no século XX. Bardot não foi apenas uma atriz de sucesso; foi um rosto, um corpo e uma atitude que ajudaram a redefinir comportamentos, desejos e limites numa época de rupturas.

Nos anos de 1960, período marcado pela revolução comportamental, pelo Verão do Amor, pela luta por direitos civis e pelo avanço das pautas feministas, Bardot alcançou a condição de estereótipo da liberdade feminina. Não por acaso, Simone de Beauvoir enxergou na atriz uma corporificação dessa liberdade, especialmente a partir do impacto de E Deus Criou a Mulher (Et Dieu… créa la femme), lançado em 1956 e dirigido por Roger Vadim, então marido de Bardot. O filme, ainda que anterior à explosão cultural dos anos 60, funciona como prenúncio do que ela se tornaria: um terremoto simbólico em uma sociedade rigidamente patriarcal.

No filme, Bardot interpreta Juliette, jovem do interior que escapa às convenções: anda descalça, nada, quer dirigir, deseja — e escolhe. É uma personagem que sonha, erra, provoca e incomoda. Juliette não pede licença para existir. A narrativa é conduzida a partir de seu ponto de vista, algo raro para a época. A liberdade que emana de seus gestos cotidianos — trabalhar, não querer casar, circular sozinha — explica tanto o fascínio quanto a rejeição que ela desperta na comunidade que a cerca.

Há, no entanto, uma tensão central que faz do filme algo mais complexo do que a superfície sugere. A sensualidade explícita, que levou a censuras e proibições, convive com reflexões existenciais que ecoam a tradição da literatura e do pensamento francês: “o que é a felicidade?”, “como uma mulher pode ser feliz?”. Essas perguntas, lançadas em pleno pós-guerra, ajudaram a transformar Juliette em emblema e Bardot em mito.

O desfecho do filme é revelador — e perturbador. Após escolhas afetivas que desafiam a moral vigente, Juliette sofre violência do marido. A cena final impõe um limite brutal à emancipação feminina: a liberdade existe, mas cobra um preço alto. Ainda assim, o simples fato de expor a psicologia de uma mulher desejante, contraditória e autônoma já representava um ganho simbólico imenso para o cinema de então.

A trajetória de Bardot costuma ser lida em três grandes fases. A primeira é a da atriz-ícone, inaugurada por E Deus Criou a Mulher e consolidada nos anos 60, quando sua imagem circulou globalmente — inclusive no Brasil, onde sua passagem por Búzios alimentou lendas e imaginários. A segunda começa quando, aos 35 anos, ela abandona o cinema no auge da fama para se dedicar integralmente à defesa dos animais, tornando-se uma das ativistas mais conhecidas da causa. A terceira, mais recente, é marcada por declarações polêmicas — racistas, homofóbicas, transfóbicas e anti-imigração — que colocaram sua figura sob forte contestação pública.

Essa coexistência de ruptura e conservadorismo, de libertação e intolerância, é parte indissociável do legado de Brigitte Bardot. O impacto de sua morte no cinema e na cultura não está apenas na nostalgia de uma era dourada, mas na lembrança de como os mitos são feitos de luz e sombra. Bardot ajudou a abrir portas simbólicas para a liberdade feminina, mesmo quando a vida — e suas próprias escolhas — insistiram em fechá-las.

Que sobreviva, portanto, Brigitte Bardot: não como santa nem como vilã, mas como um mito complexo, capaz de revelar as conquistas, os limites e as contradições de um século em transformação.

*Kate Constantino Oliveira é doutora em Educação, professora da Rede Municipal de Ensino e autora do livro “De língua da corte a matéria de estudo: a institucionalização do ensino de francês no Brasil” (Criação; Theya, 2023).

O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.

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1 Comment

  1. Alysson Cunha dos Santos disse:

    Adorei, como ela aborda Brigitte Bardot e sua forte influência em uma época de uma sociedade rígida e patriarcal. Parabéns a Kate, excelência em artigos.

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