Apostador de Aracaju ganha R$ 1,1 milhão na Lotofácil
19 de dezembro de 2025
Sem acordo, trabalhadores mantêm greve na Petrobras
20 de dezembro de 2025
Exibir tudo

Ciência no Nordeste: crescer não basta. A UFS como espelho das assimetrias brasileiras

Por Lucindo Quintans Júnior*

Em matéria publicada pelo ICL Notícias dia 18/12/25, intitulada “Brasil tem aumento de artigos científicos publicados, mas ainda é 14º em ranking. Relatório da Elsevier e da Bori mostra alta de 4,5% nas publicações em 2024, mas país segue fora do top 10 global”, são apresentados dados recentes sobre a produção científica nacional. Segundo o levantamento elaborado pela editora Elsevier em parceria com a Agência Bori, o Brasil registrou crescimento no número de artigos científicos publicados em 2024, alcançando 73.220 trabalhos indexados, o que representa um aumento de 4,5% em relação a 2023. Apesar disso, o país manteve-se na 14ª posição em um ranking que reúne 53 países, posição que ocupa desde a primeira edição do relatório, em 2022.

Esse crescimento interrompe a sequência de quedas observadas nos anos anteriores, quando a produção científica brasileira recuou 8,2% entre 2021 e 2022 e 7,3% entre 2022 e 2023. Trata-se de uma inflexão positiva no volume de publicações, relevante porque os indicadores de produção científica são internacionalmente reconhecidos como instrumentos centrais para aferir o nível de desenvolvimento de um país, sua competitividade global e sua capacidade de atrair financiamento externo. Ainda assim, o avanço registrado não foi suficiente para alterar o posicionamento do Brasil no cenário científico internacional nem para ampliar, de forma consistente, sua credibilidade científica global.

O Brasil ampliou sua produção científica em 2024, mas permaneceu estagnado em termos de relevância relativa. O contraste revela um paradoxo persistente: cresce-se em quantidade, mas sem avanço proporcional em impacto global. Esse paradoxo torna-se ainda mais evidente quando o foco se desloca do eixo Sudeste-Sul para o Nordeste. Nesse contexto, a Universidade Federal de Sergipe (UFS) emerge como um termômetro fiel das virtudes e dos limites do sistema científico nacional.

O acompanhamento sistemático da UFS por plataformas bibliométricas como o SciVal, ao longo dos últimos anos, revela uma instituição que entrega ciência acima da média regional. Aproximadamente 69% de sua produção está concentrada em periódicos classificados nos quartis Q1 e Q2, desempenho comparável ou superior ao de universidades nordestinas de porte semelhante. Ainda mais expressivo é o impacto dessa produção. O FWCI (Impacto de Citações Ponderado por Área de Conhecimento) da UFS é de 1,62 (usando os últimos 4 anos como análise), indicando que seus artigos recebem, em média, 62% mais citações do que a média mundial. Em um país que publica mais, mas nem sempre publica com influência, esse indicador é particularmente revelador.

Esses resultados, no entanto, não devem ser interpretados como sinal de conforto institucional. Pelo contrário. O aumento do número total de artigos não foi acompanhado por expansão proporcional nas faixas de altíssimo impacto, como o grupo dos 1% mais citados. Esse descompasso sugere um sistema operando próximo ao seu limite estrutural. Ciência de fronteira exige infraestrutura robusta, equipes técnicas estáveis, financiamento contínuo, planejamento estratégico e previsibilidade orçamentária. Quando esses elementos faltam, a produtividade pode se manter por esforço humano, mas a excelência tende a se esgotar.

O problema, portanto, não reside na capacidade científica das universidades nordestinas, mas no ambiente institucional e nas políticas públicas (estadual e nacional) que moldam o sistema nacional de pós-graduação e pesquisa. O debate recente sobre os critérios de distribuição de bolsas da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) ilustra bem essa tensão. Embora o modelo vigente demande ajustes, sua lógica central busca corrigir assimetrias históricas que concentraram recursos no Sudeste e no Sul, em detrimento do Norte e do Nordeste. Regiões marcadas por desigualdades estruturais não podem ser avaliadas exclusivamente por métricas absolutas, sob pena de perpetuar exclusões já conhecidas.

Esse cenário é agravado por cortes recorrentes e pela instabilidade no financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da CAPES ao longo dos últimos anos. Embora haja um discurso oficial de retomada da ciência, a execução orçamentária evidencia a persistente concentração regional dos recursos. Dados do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) indicam que a maior parte dos investimentos em inovação continua direcionada ao Sudeste, especialmente ao estado de São Paulo. O resultado é previsível: universidades do Nordeste, bem como do Norte e do Centro-Oeste, produzem ciência relevante com financiamento insuficiente, enquanto regiões já consolidadas ampliam sua vantagem competitiva. A redução das assimetrias regionais é, portanto, urgente.

A decisão do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), por meio da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), de não lançar em 2026 a Chamada Pública MCTI/FINEP/FNDCT PROINFRA Desenvolvimento Regional Norte, Nordeste e Centro-Oeste (NNECO 2024), uma das poucas iniciativas efetivamente voltadas à redução das assimetrias regionais em infraestrutura científica e tecnológica, constitui mais uma evidência inequívoca de que a retórica de uma ciência mais inclusiva ainda não se traduziu em ação concreta. A ausência desse instrumento compromete a expansão da capacidade instalada nas regiões historicamente subfinanciadas e reforça a distância entre discurso institucional e política pública efetiva.

A UFS, assim como, por exemplo, a UFAL e a UFPI, citadas por serem instituições irmãs em porte, perfil acadêmico, restrições orçamentárias e estarem no nordeste, exemplifica esse desequilíbrio. São universidades que entregam impacto científico e mudam realidades locais acima do esperado para o volume de financiamento recebido. Essa capacidade, frequentemente romantizada como resiliência institucional, tem limites claros. Nenhum sistema científico se sustenta indefinidamente à base de improviso, sobrecarga docente e infraestrutura tensionada. Indicadores positivos não substituem políticas estruturantes.

Reduzir assimetrias regionais não é um gesto retórico, mas uma escolha política. Países como a China demonstram que programas direcionados e investimentos assimétricos podem acelerar o desenvolvimento científico de regiões e grupos historicamente desfavorecidos. No Brasil, contudo, a persistência de modelos concentradores sugere que a redução das desigualdades ainda não é uma prioridade consensual.

O diagnóstico é incômodo, mas inequívoco. O Nordeste entrega mais ciência do que o financiamento disponível permitiria sustentar em condições normais. Sergipe, por meio da UFS e de outras Instituições de Ciência e Tecnologia (ICTs), mostra que o problema não é talento nem vocação científica. É decisão pública. A questão central não é o que as universidades nordestinas podem fazer a mais, mas o que o país está disposto a financiar de forma justa e estratégica. Crescer sem sustentar é apenas adiar o declínio. E, na ciência, retrocessos não se resolvem com estatísticas. Cobram tempo, cérebros e oportunidades perdidas.

 *Prof. Dr. Lucindo Quintans Júnior. Professor Titular no Departamento de Fisiologia da Universidade Federal de Sergipe. Pesquisador nível 1A do CNPq. lucindo@academico.ufs.br

O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.

Compartilhe:

1 Comment

  1. José Vieira da Cruz disse:

    Excelente artigo

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *