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Uma década de Campus do Sertão da UFS (parte 1)

Por Jodnes Sobreira Vieira e Marcelo Augusto Gutierrez Carnelossi *

A história do Campus do Sertão da Universidade Federal de Sergipe, que acaba de completar uma década de existência, é marcada por um raro encontro entre mobilização popular, visão política, defesa da educação pública e compromisso acadêmico. O 6º campus da UFS, situado em Nossa Senhora da Glória, não surge de um ato isolado. Pelo contrário, é resultado de uma caminhada coletiva que envolve décadas de reivindicações, articulações e decisões estratégicas que colocaram o Sertão Sergipano no mapa da interiorização universitária.

O marco inicial dessa jornada remonta aos anos de 2005 e 2006, quando lideranças comunitárias de Nossa Senhora da Glória organizaram um amplo movimento reunindo cerca de 40 mil assinaturas para solicitar ao Governo Federal a instalação de um campus universitário no Sertão. À época, o então prefeito Chico do Correio liderou a iniciativa e levou o documento ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, consolidando politicamente um desejo histórico da população sertaneja: ter acesso à educação superior pública sem precisar migrar para outras cidades.

A conjunção de forças cresceu e, nos anos seguintes, ganhou força com a participação de diversos grupos sociais. Entre eles, destaca-se o Coletivo Jovem do Campo e da Cidade, símbolo da mobilização da juventude rural na defesa por direitos educacionais. As reivindicações de estudantes, agricultores familiares e lideranças locais criaram um ambiente político e social propício a captar apoio da classe política.

Nesse contexto, se destacou a figura do ex-governador Marcelo Déda (1960-2013), cujo governo marcou profundamente o processo de interiorização da UFS. Déda foi defensor convicto da expansão universitária como instrumento de desenvolvimento social e regional. Sob sua liderança, foram estruturados ações e compromissos que prepararam o caminho para a implantação do Campus do Sertão. A visão de Estado do jovem governador, pautada na educação como vetor de transformação, foi decisiva para que Sergipe avançasse em políticas públicas voltadas à inclusão e à formação profissional em regiões historicamente menos assistidas.

O passo decisivo, entretanto, ocorreu em 2013, quando seu sucessor, o governador Jackson Barreto, dando continuidade à política iniciada por Déda, obteve do então ministro da Educação, Aloizio Mercadante, a confirmação oficial de que o Sertão receberia um campus da UFS. A decisão foi celebrada como “uma grande vitória do povo sertanejo”, reafirmando o compromisso federal com a interiorização e com a democratização do acesso ao ensino superior. Diante da boa nova, em abril de 2014, Jackson Barreto visitou Nossa Senhora da Glória ao lado do reitor Ângelo Roberto Antoniolli para anunciar os quatro cursos inaugurais: Zootecnia, Agronomia, Medicina Veterinária e Agroindústria. Os dois gestores também visitaram a sede provisória — o polo da Universidade Aberta do Brasil (UAB) na cidade — e o local destinado à futura Fazenda Experimental, área conhecida como Fazenda Modelo.

Nesse período fundador, o apoio da bancada sergipana foi expressivo, com destaque para os deputados Márcio Macedo, Fábio Reis e Ana Lúcia, que estiveram presentes nos atos oficiais e defenderam o projeto. Anos mais tarde, o deputado federal João Daniel celebraria na Câmara dos Deputados a aula inaugural do campus, reconhecendo seu papel transformador na vida de jovens sertanejos. Aliás, é possível afirmar que a bancada sergipana cumpriu papel estratégico ao destinar emendas parlamentares no decorrer desta primeira década, viabilizando atividades diversas, projetos e a construção do próprio complexo de prédios para a sede definitiva do Campus.

O diálogo frutífero com a bancada sergipana teve nos professores Ângelo Antoniolli e Valter Joviniano, ex-reitores da UFS, interlocutores importantes. Ambos não mediram esforços para sensibilizar a todos sobre a necessidade de recursos para o Campus do Sertão e, em inúmeras vezes, realizaram visitas a gabinetes de parlamentares, participaram de reuniões de comissões especiais, conversaram diretamente com agrupamentos políticos de todas as tendências, sempre ressaltando a importância de aportes financeiros através de emendas da bancada para a UFS, lembrando que assim ganhava todo o nosso estado.

Assim como a bancada sergipana, o Governo estadual manteve seu apoio nas fases seguintes. Durante a gestão de Belivaldo Chagas, a vice-governadora Eliane Aquino participou da cerimônia de lançamento da pedra fundamental da Fazenda Experimental, reafirmando a continuidade da parceria. Na ocasião, o secretário de Estado da Agricultura, Esmeraldo Leal, destacou o impacto do campus na transformação da agropecuária regional, conectando sustentabilidade, inovação e formação qualificada.

Por fim, é impossível contar essa história sem reconhecer o papel decisivo dos professores e técnicos pioneiros. Eles foram responsáveis por manter o campus funcionando durante obras, superar as limitações de infraestrutura e desafios institucionais e dar suporte aos estudantes das primeiras turmas, cujas trajetórias ilustram a mudança real proporcionada pela chegada da UFS à capital da bacia leiteira de Sergipe.

Assim, a criação do Campus do Sertão não se resume à abertura de uma unidade acadêmica, mas representa um marco social, político e educacional. E reforçamos que ela não foi fruto de decisões palacianas, não foi algo restrito a gabinetes. O sucesso da iniciativa, que agora completa uma década, aliou esforço coletivo de governos, movimentos sociais, lideranças regionais, gestores universitários, professores, técnicos e estudantes que, juntos, transformaram um sonho de décadas em realidade. Hoje, o Campus do Sertão é patrimônio intelectual e cultural do semiárido sergipano e símbolo vivo da força da interiorização universitária iniciada por Marcelo Déda, ampliada por seus sucessores e consolidada pelo trabalho cotidiano de sua comunidade acadêmica.

*Jodnes Sobreira Vieira foi diretor geral do Campus do Sertão da UFS e Marcelo Augusto Gutierrez Carnelossi foi diretor pedagógico do Campus do Sertão da UFS.

O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.

 

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