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Vestir beca aos 5 anos: triunfo do adultocentrismo sobre a infância

Por Renato Mendes Rocha*

Estamos chegando ao final de mais um ano, e um novo evento se tornou cada vez mais comum nesta época: as formaturas do ABC, festas escolares que mimetizam o rito de formatura universitária para crianças de 5 ou 6 anos. Há algo estranho no ar, e precisamos refletir sobre essa tendência.

Imagens nas redes sociais mostram pequenos de beca, enfileirados, recebendo diplomas e repetindo discursos prontos. Recentemente, em uma reunião do Conselho Escolar, o tema a ser tratado era a transição da Educação Infantil para o Ensino Fundamental. A coordenação pedagógica propunha um evento de transição, destacando o início de uma nova etapa da vida escolar. No entanto, alguns pais insistiam na realização da ‘formatura do ABC’, com beca, diploma, discurso e claro, espaço para muitas fotografias.

Este fenômeno social é crescente, especialmente em escolas particulares e é alimentado pela vaidade parental. Ele antecipa no universo infantil uma celebração tradicional do mundo adulto, que representa a conclusão de uma longa jornada de estudos. As formaturas universitárias celebram uma trajetória de dedicação que capacita para a vida adulta e profissional. Um feito digno de celebração sobretudo no Brasil, onde dados do IBGE (2022) mostram que pouco mais de 20% da população adulta possui ensino superior completo. Em Sergipe, são apenas 12% da população, ocupando apenas a 23ª posição dentre os estados brasileiros.

A ‘formatura do ABC’ é, portanto, uma expressão acentuada do adultocentrismo, um modelo cultural que impõe ritos e expectativas adultas sobre outras fases da vida. Ele trata a criança como um mini-adulto a ser moldado, desconsiderando aspectos singulares e a essência da própria infância. A cerimônia, por si só, costuma ser maçante, demorada e repetitiva para os pequenos.

Em vez disso, a escola pode realizar uma festa que enfatiza a transição para o ensino fundamental, onde a criança caminha em direção à consolidação de sua vida estudantil. Nesta nova etapa, a brincadeira perde gradualmente espaço para dar lugar ao caderno com pauta, à caligrafia, aos livros didáticos e à imersão no universo das letras, números, desafios e leituras.

A celebração da formatura do ABC, nome escolhido em virtude da expectativa em torno da alfabetização, é incoerente por diversos aspectos. Do ponto de vista pedagógico e do desenvolvimento infantil, não se deve esperar a plena realização das habilidades de leitura e escrita de crianças de 5 anos. Não é esse o objetivo da Educação Infantil. Mesmo que crianças superestimuladas desenvolvam a capacidade de leitura, esse não é o foco central. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), estabelece que a Educação Infantil tem como eixos estruturantes as interações e as brincadeiras, e não a plena alfabetização. Realizar a formatura do ABC aos 5 anos, como se fosse um ciclo concluído, é ignorar o desenvolvimento infantil e o próprio objetivo pedagógico desta etapa.

O adultocentrismo na educação infantil, expressão cunhada para refletir práticas pedagógicas adultas levadas ao mundo da criança sem a devida reflexão, merece a atenção de pais e educadores. Em um mundo em que os aparelhos tecnológicos e redes sociais estão cada vez mais presentes, é crucial um esforço da família, da escola e da sociedade para salvaguardar as crianças da crueldade do mundo adulto.

A formatura do ABC é um salto desproporcional e desmedido na educação das crianças. Elas não compreenderão sua dimensão e a celebração servirá apenas para o regozijo dos pais, por meio da geração de conteúdo, fotos e vídeos de seus pequenos vestindo roupas adultas. A criança deve ser criança e não um mini-adulto. Seu tempo deve ser preservado e respeitado, com brincadeira, liberdade, nutrição, amor, imaginação, aprendizado, observação e enriquecimento intelectualmente com bons exemplos e virtudes.

* Renato Mendes Rocha é professor no Departamento de Filosofia da UFS e representante de Pais no Conselho Escolar da Escola Municipal de Ensino Fundamental Bebé Tiúba, Aracaju, Sergipe.

O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.

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