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“Fugiu ao abaixo assinado”: resistência de afro-sergipanas à escravidão, século XIX

Por Amâncio Cardoso*

Enquanto durou no país o regime de cativeiro de pessoas afro-brasileiras, as fugas foram uma estratégia básica de resistência contra a ordem estabelecida. Esse expediente foi bastante utilizado, sobretudo após a lei que coibia o tráfico transatlântico, bem como as leis de abolição gradual da escravidão no século XIX.[1]

As fugas eram efetivadas intensamente por homens. Porém, muitas mulheres também se evadiram do cativeiro em busca da liberdade, mesmo que provisória ou incerta.[2] Prova disso, são os diversos anúncios de escravizadas fugitivas publicados nos jornais do Império. Desse modo, a fuga era uma espécie de afronta ao poder senhorial. E os anúncios se constituíram em preciosas fontes para análise historiográfica.

La Fuite des esclaves, 1859. Pintura de Francois-Auguste-Biard (1799-1882)

Embora os anúncios revelem apenas a perspectiva dos escravocratas, deles podemos extrair várias informações. Tais anúncios eram uma espécie de “retrato falado” das fugitivas e ressaltavam vários aspectos: traços físicos e morais, nome, cor, sexo, idade, ocupação e habilidades, origem étnica, condição civil, doenças e/ou deformidades, indumentária, estratégias, formas de sociabilidade, entre outros. Neste sentido, eles formavam um conjunto de dados sobre expedientes de fuga utilizados por mulheres contra o sistema de cativeiro.[3]

Dois estudos pioneiros sobre o tema, no Brasil e em Sergipe, foram o livro de Gilberto Freyre, “O escravo nos anúncios de jornais brasileiros do século XIX”, e o artigo de Luiz Mott, “O escravo nos anúncios de jornal de Sergipe”. Ambos consideram o anúncio como importante documento “pouquíssimo” explorado, podendo fornecer ricas informações “após depuração sistemática”.[4]

Os jornais publicaram notas de fuga desde os primórdios da imprensa escrita. Assim, sigamos os passos daqueles primeiros estudiosos, e examinemos alguns anúncios em jornais sergipanos do século XIX para vislumbrar peculiaridades e significados de fugas realizadas por mulheres.

As fugas tinham aspectos inerentes à condição feminina. O estado de gravidez, por exemplo, era um deles. Tal situação, certamente, causaria transtornos específicos. Mesmo assim, Antônia fugira “por demais prenhe” da casa de Pedro d’Alcântara Sales, na cidade de São Cristóvão, antiga capital da província, em 1853. Será que ela teria fugido por trabalhar exaustivamente às vésperas de parir? Ou ela teria fugido, talvez, para se juntar ao pai da criança, que poderia ser um fugitivo quilombola?[5]

A formação de pequenos quilombos provisórios era comum nas matas sergipanas em meados do século XIX. Por isso, a intimidade entre Antônia e um quilombola não seria improvável. Afinal, os fugitivos mantinham uma rede de solidariedade com moradores livres, forros ou cativos dos engenhos ou povoados, dos quais recebiam alimentos, roupas, ferramentas e acolhimento.[6]

Em 1873, por exemplo, um chefe de polícia relatou sobre as relações de solidariedade entre os quilombolas e os residentes nas fazendas. Ele escreveu que alguns proprietários permitiam não só que os aquilombados se escondessem em suas terras, como também não impediam que eles se relacionassem com seus escravizados. Portanto, o paradeiro de Antônia, que estava “por demais prenhe” ao fugir de São Cristóvão, poderia ser um quilombo no vale do Cotinguiba ou uma senzala nos engenhos do Vaza-Barris.[7]

Citemos aqui mais um exemplo. É o caso da africana Thereza. Ela estava fugida há um mês e meio da casa de João Batista de Sales, em 1851, também na cidade de São Cristóvão. Segundo o anunciante, Thereza “foi vista na senzala de um escravo do sr. José Manoel Machado d’Araújo, no seu sítio Saco”. De onde ela saiu “por ser vista”, e reaparecendo no engenho de um certo “capitão Bernardino”, no Vaza-Barris. Esses deslocamentos indicam que a rede de proteção de Thereza era relativamente segura e eficaz para quem fugia numa província de pequena dimensão.[8]

As fugas empreendidas em Sergipe eram em geral solitárias, talvez para não despertarem alguma delação. No entanto, encontramos também fugas em dupla e em grupo. Maria da Paixão, por exemplo, fugiu com sua filha Joaquina, de 14 anos, da cidade de Estância, sudeste de Sergipe, em 1856. O curioso é que a menina evadiu-se carregando, “bem atarraxado” no pescoço, o ferro de cruz (instrumento de tortura) por castigo de fugas anteriores. É provável que seu senhor, José Joaquim Pereira Lima, tivesse sérios problemas de relacionamento com a menor. Pois, não por acaso, mãe e filha levaram “toda a roupa” ao fugirem, indício de busca de liberdade duradoura ou definitiva.[9]

Já em 1854, na cidade de São Cristóvão, ocorreu uma fuga grupal. Fugiram o casal Felipe e Delfina (ambos Nagô) e seus filhos Jeremias e Arminda (ambos nascidos no Brasil); além de Inês e sua filha Maria. O anunciante, João Manuel de Menezes, acreditava que todos foram “seduzidos por pessoas mal intencionadas”. Por essa suspeita, se deduz que a fuga foi bem planejada. Quanto à “má intenção” anunciada, talvez se devesse à possibilidade de venda dos fugitivos para outra província, porque ocorria à época tanto o tráfico intraprovincial quanto o interprovincial, cuja demanda por mão-de-obra nas lavouras de café do sudeste era intensa.[10]

Encontramos outra fuga coletiva em um anúncio de 1878. Dessa vez, de uma família de sete pessoas da senzala do engenho Dira, em Itaporanga d’Ajuda. Eram eles: Martinho, com cerca de 50 anos, ferreiro, carpina e “exercia o lugar de feitor”; sua mulher “de nome Ozória”; e seus “cinco filhos” – Blandina, 17 anos; Ozana, 15; Ozéas, 13; e “dois ingênuos”, Joana e Ananias.[11]

O termo “ingênuo” referia-se a uma criança nascida após a Lei do Ventre Livre, de 1871. Conforme essa lei, a criança era considerada livre, porém dependente do senhor de sua mãe até a idade de 08 anos completos. Depois disso, o senhorio optava por receber uma indenização do Estado ou utilizar os serviços do menor até os 21 anos. Ou seja, crianças nascidas após a lei do Ventre Livre dificilmente conquistariam suas liberdades, senão através da fuga; como o fez Ozória com seus dois ingênuos.[12]

Muitas mulheres de origem africana traziam marcas étnicas no corpo, sinais indicativos de sua respectiva nação de origem. Eram signos tradicionais de pertencimento das diversas etnias africanas. Tais marcas na pele eram utilizadas pelos anunciantes para melhor identificá-las. Um exemplo foi o de Esperança, de origem Nagô, fugida da cidade de Estância em 1857. Ela possuía como marca étnica “três cicatrizes de cada lado do rosto”. Outro exemplo é o de Maria Rosa, que fugiu da cidade de São Cristóvão em 1854. Rosa também era de nação Nagô, “com sinais Gêge na cara”.[13]

A mistura entre Gêge e Nagô identificada pelo anunciante em Rosa se deve porque foi um termo utilizado no Brasil, sobretudo na Bahia, para designar a fusão das duas culturas que possuíam práticas religiosas afro-brasileiras, as quais cultuavam entidades espirituais, Voduns e Orixás respectivamente.[14]

Quanto aos destinos das fugitivas, eles eram especulados pelos anunciantes, conforme a ligação afetiva de quem fugia para um local determinado. Por exemplo, Ana fugiu da cidade de Estância, em 1858, da casa do padre José Luiz de Azevedo. Provavelmente, ela se dirigiu para as cercanias de Simão Dias, no sertão sergipano, de onde Ana era natural. Ademais, dali até a província vizinha era um passo, e as terras sem fim da Bahia poderiam assegurar sua fuga.[15]

Mas, por mais que se escapasse para longe, a fuga era um expediente quase sempre provisório. No entanto, algumas mulheres conseguiram permanecer por bom tempo longe do cativeiro. Este foi o caso, por exemplo, de Maria. Fugida de Maruim, em 1860, ela foi comprada por Francisco Antônio Anequim, em Itabaiana, e permaneceu em fuga durante cerca de quatro anos. Possivelmente, ela teria retornado e se embrenhado nas matas de Itabaiana grande, lugar famoso por abrigar fugitivos.[16]

Muitos anúncios traziam o nome das mulheres, outros não tinham sequer a identidade da procurada, sobretudo quando era recém chegada da África. Mas poucos anunciavam os apelidos. Uma exceção foi o anúncio de fuga de Francisca, em 1842. Seu apelido, “Xica da Pastora”, era “muito conhecido” na cidade de São Cristóvão, segundo o anunciante, por ela ser ex-cativa da viúva sra. Pastora. Note-se que a preposição “da”, no meio do apelido, indica claramente a posse da viúva e a condição jurídica de Francisca.[17]

Para fugir em dupla ou em grupo era preciso haver confidencialidade entre os pares. Se por acaso as parceiras fossem da mesma etnia, no caso de africanas, o nível de confiança entre elas poderia ser bem maior.

Foi o que ocorreu na fuga de Maria Rita com Maria Joaquina, as duas de “nação Nagô”. Elas escaparam juntas à noite, em 1845, na cidade de São Cristóvão, da casa do senhor José Martins Penna, membro da administração da Santa Casa de Misericórdia e inspetor da Tesouraria de rendas provinciais. Portanto, uma autoridade muito conhecida na antiga capital de Sergipe. Supõe-se, por isso, que a fuga noturna seria mais discreta e segura para as duas africanas.[18]

Outra mulher escravizada que fugiu desafiando uma poderosa autoridade provincial foi Luiza. Sua fuga se deu da casa do juiz de direito da Comarca de Laranjeiras, dr. Manuel Felipe Monteiro, em 1853. Ele também acionou seu colega, o juiz de direito da vizinha Comarca de São Cristóvão, dr. Antônio Joaquim da Silva Gomes, caso Luiza fosse presa nessa jurisdição. Doutor Monteiro afiançava “boa recompensa” a quem capturasse Luiza. Não obtivemos informações se ela logrou êxito na fuga, sob o encalço de autoridades tão poderosas.[19]

Fugiam mulheres de todas as idades. Tomemos o exemplo de três que fugiram do engenho Timbó, no vale do Vaza-Barris, em 1850: Bernardina, de 43 anos, e duas adolescentes, de 17 e 14 anos, mas não se anunciou seus nomes. E em 1842, fugiram Marta, com cerca de 13 anos, em companhia de seu irmão Guilherme, de 18. E por fim, também fugiu em 1842, Henriqueta, de “nação Gêge”, com “mais ou menos” 22 anos. Geralmente, a idade das africanas era presumida pelo anunciante, uma vez que muitas não falavam o português quando foram apresadas e traficadas, desde África para América. Dificilmente, havia registro etário correto no momento do embarque.[20]

Se as fugas de mulheres aconteceram com intensidade, isso significa que não se deve negligenciá-las. Neste sentido, estudar os anúncios de fuga permite que tenhamos uma melhor compreensão dos horizontes de expectativa de vida de afro-sergipanas e seus descendentes. Assim sendo, a fuga significava a busca por espaço de autonomia e liberdade relativas.[21]

Por fim, quem ainda menospreza a atuação feminina em nossa História, ou preconcebe a mulher como sexo frágil, desconhece completamente atitudes e riscos de vida, encarados com audácia por aquelas que se rebelaram contra a escravização, através das fugas estampadas em jornais do século XIX.

*É historiador.

[1] NEVES, Maria de Fátima Rodrigues das. Documentos sobre a Escravidão no Brasil. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2002. p.84-86.

[2] Em Sergipe, num levantamento de 144 fugas de escravizados, 36 foram realizadas por mulheres (25%), e 108 empreendidas por homens (75%). Ver: MOTT, Luiz. O escravo nos anúncios de jornal de Sergipe. Revista do IHGSE. Aracaju, nº 29, p. 133-147, 1983-1987. (citação p. 137). Sobre anúncios de fuga de mulheres na Bahia, ver: REIS, Isabel Cristina Ferreira dos. “Uma negra que fugiu, e consta que já tem dous filhos”: fuga e família entre escravos na Bahia. Afro-Ásia, Salvador, nº 23, 2000. p. 27-46.

[3] CARDOSO, Amâncio. Escravidão em Sergipe: fugas e quilombolas – séc. XIX. Revista do IHGSE. Aracaju, nº 34, p. 55-73, 2003-2005.

[4] Obras pioneiras sobre os anúncios são: FREYRE, Gilberto. O escravo nos anúncios de jornais brasileiros do século XIX. Recife: Imprensa Universitária, 1963. 224 p.; MOTT, Luiz. O escravo nos anúncios de jornal de Sergipe. Revista do IHGSE. Aracaju, nº 29, p. 133-147, 1983-1987.

[5] Correio Sergipense. São Cristóvão, 09 de fevereiro de 1853, n. 10, p. 04.

[6] Sobre a proteção aos fugitivos da escravidão, ver: FIGUEIREDO, Ariosvaldo. O negro e a violência do branco. Rio de Janeiro: J. Álvaro, 1977. p. 83-94; SANTOS, Lourival S. Quilombos e quilombolas em terras de Sergipe no séc. XIX. Revista do IHGSE. Aracaju, nº 31, p. 31- 43, 1992; SANTOS, Maria Nely. A sociedade libertadora ‘Cabana do Pai Thomaz’. Aracaju: J. Andrade, 1997. p. 107-132; AMARAL, Sharyse Piroupo do. Um pé calçado, outro no chão: liberdade e escravidão em Sergipe (Cotinguiba, 1860-1900). Salvador: EDUFBA; Aracaju: Editora Diário Oficial, 2012.

[7] ESPÍNOLA JÚNIOR, Manoel José. Relatório do chefe de polícia. In SEBRÃO, Cypriano d’Almeida. Relatório do Presidente da Província. Aracaju: Typ. Jornal do Aracaju, 01 de março de 1873. Anexo, p. 06.

[8] Correio Sergipense. São Cristóvão, de 10 de maio de 1851, nº 32, p. 04.

[9] Correio Sergipense. Aracaju, nº 27, 10 de maio de 1856, p.4.

[10] Correio Sergipense. Aracaju, nº 84, 11 de novembro de 1854, p. 04. Sobre o tráfico inter e intraprovincial de mão de obra escravizada em Sergipe, ver: PASSOS SUBRINHO, Josué Modesto dos. Reordenamento do Trabalho: trabalho escravo e trabalho livre no Nordeste açucareiro, Sergipe, 1850-1030. Aracaju: Funcaju, 2000. p. 140-148.

[11] Jornal do Aracaju, 06 de fevereiro de 1878, nº 922, p. 04.

[12] Sobre a legislação no tempo da escravidão, ver: NEVES, Maria de Fátima Rodrigues das. Documentos sobre a Escravidão no Brasil. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2002.

[13] Correio Sergipense. Aracaju, 14 de novembro de 1857, nº 50, p. 04; Correio Sergipense. Aracaju, 29 de agosto de 1857, nº 40, p.4; Correio Sergipense. São Cristóvão, 04 de outubro de 1854, nº 74, p. 04.

[14] LOPES, Nei. Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana. [s.l.]: Selo Negro, 2004. Gêge ou Jeje, termo surgido na Bahia, no início do século XVIII, para designar os africanos escravizados provenientes do antigo reino do Daomé e seu entorno, na Costa da Mina, África ocidental, correspondendo à região meridional da atual República do Benim e Togo. Disponível em:  https://www.ancestralidades.org.br/. Acesso em: 01/10/2025. Nagô designa um povo de língua iorubá, do grupo sudanês, que habitava regiões da Nigéria, do Benim e do Togo. Disponível em: https://dicionario.priberam.org/. Acesso em: 01/10/2025.

[15] Correio Sergipense. Aracaju, nº 21, 28 de abril de 1858, p.4.

[16] Correio Sergipense. Aracaju, nº 31, 08 de abril de 1860, p.4.

[17] Correio Sergipense. São Cristóvão, 09 de março de 1842, nº 334, p. 04.

[18] Correio Sergipense. São Cristóvão, nº 593, 12 de março de 1845, nº 593, p. 04.

[19] Correio Sergipense. São Cristóvão, 07 de dezembro 1853, nº 86, p. 04.

[20] Correio Sergipense. São Cristóvão, 15 de junho de 1850, nº 45, p. 04; Correio Sergipense. São Cristóvão, 12 de março de 1842, nº 335, p. 04; Correio Sergipense. São Cristóvão, 16 de abril de 1842, nº 343, p. 04.

[21] MATTOSO, Kátia de Queirós. Ser escravo no Brasil. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 2001. p. 153; NEVES, Raphael. Fugas de escravizados e os anúncios de fuga. Disponível em: https://bndigital.bn.gov.br/artigos. Acesso em: 05/10/2025.

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