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Mais uma vez, a facção

Por Marcelo Rocha *

Mais uma vez, o PCC – Primeiro Comando da Capital – toma conta do noticiário nacional. As três operações realizadas em conjunto pelos governos federal e estadual trouxeram à tona a complexidade do crime organizado no país e sua relação com setores da economia até então vistos como paladinos da moralidade, como a entidade sem rosto da “Faria Lima”.

Para muitos que pensam que o PCC é uma espécie de “gangue”, responsável apenas por gerenciar o crime nas quebradas, com seus soldados armados de fuzis nas esquinas, a realidade se impôs.

Na verdade, quem procura minimamente entender o PCC sabe que nada está mais distante da realidade do que “soldados” de fuzil na quebrada.

Isso não significa, de forma alguma, que não haja violência. Basta lembrar, por exemplo, as mortes de 2018 que vitimaram Gegê do Mangue e outros integrantes da facção, em um ajuste que já revelava a face empresarial dos gestores da organização: helicópteros, casas de luxo (no caso específico de Gegê, no Ceará), hotéis refinados e automóveis de luxo, como nas execuções de Cabelo Duro e Nego Branco, em São Paulo. Em grande medida, parte dos executados à época não apenas levava uma vida de luxo, como também participava da vida social como “empresários/investidores”.

Um parêntese: há uma diferença profunda entre o perfil faccional do Rio de Janeiro e o de São Paulo. No primeiro, há constante disputa territorial entre facções — sejam elas de base prisional ou milícias —, o que explica o uso frequente do termo “tomada de morro”. Algo que não existe em São Paulo, onde a “quebrada” é hegemonicamente dominada pelo PCC. Eis por que, em São Paulo, não se vê “soldados do tráfico de fuzil” nas esquinas, como ocorre no Rio de Janeiro.

Mais organizado e tendo pacificado sua hegemonia, o PCC consegue dedicar-se (e estruturar-se) à chamada “sintonia do progresso”, setor responsável pelo tráfico de drogas, que nas últimas décadas evoluiu exponencialmente não apenas no atacado, mas também na consolidação do comércio internacional.

Nesse sentido, o êxito traz consigo um problema tão grande (ou até maior) que a própria ação criminosa: como lavar esse dinheiro.

Os montantes em dinheiro apurados nas operações da semana passada colocam a ação criminal com faturamento comparável ao de grandes empresas regulares do país — grandes no sentido de serem as maiores, inclusive de atuação internacional.

E, apesar de não parecer, não há novidade nisso. Estudos sobre a economia ilícita sempre apontaram para sua “competitividade” em números frente à economia formal.

Outro parêntese: assim como o mesmo caminhão que carrega grãos pela rota caipira — Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais e São Paulo, por onde flui a maior parte da cocaína que chega ou passa pelo Brasil — também transporta a droga oculta, a mesma “lavanderia” que limpa o dinheiro do tráfico é a que lava o do corrupto que desvia recursos públicos.

Pablo Escobar, que tinha a peculiaridade de querer trazer todo o dinheiro obtido com drogas nos EUA para a Colômbia, por não conseguir “lavá-lo”, escondia-o em lugares diversos, como paredes de casas e tonéis enterrados em áreas rurais. Após sua morte, isso desencadeou uma verdadeira caça ao tesouro na Colômbia dos anos 1990.

O pesquisador Gabriel Feltran vai além e aponta que todo esse volume de dinheiro movimentado pelo crime organizado — exatamente por sua dimensão descomunal — é inevitavelmente inserido, de algum modo, na economia formal. Para ele, muitos segmentos formais se interessam em participar dessa “festa”. A “Faria Lima”, segundo essa perspectiva, estaria envolvida justamente por querer participar, mas sem se sujar.

Por isso, para quem acompanha ou tenta entender minimamente essas dinâmicas, não é permitido se surpreender com o que veio à tona na semana passada. Afinal, como movimentar dezenas de bilhões sem passar pelo sistema formal? Como guardar esse dinheiro, mesmo com notas de R$ 200,00 em circulação — lembrando Pablo Escobar?

Aqui cabe uma explicação feita recentemente na imprensa: esse volume de dinheiro da economia ilegal precisa do sistema legal para ser inicialmente movimentado e lavado. Em um segundo momento, ativos como criptomoedas podem — e são — utilizados para ocultar esses valores (não apenas para isso, claro), uma vez que não circulam pelo sistema bancário, dificultando seu rastreamento. Recordo exatamente da expressão: “ao transformar-se em criptomoedas, o dinheiro desaparece”.

Considerando toda essa dinâmica, não surpreenderá se, em algum momento, a investigação da morte de Vinícius Gritzbach se entrelaçar com as novas investigações, em alguma reviravolta. Suas atividades de lavagem de dinheiro já o credibilizam para tal. Elas envolviam desde a clássica atuação no mercado imobiliário até operações com criptomoedas. Além disso, circulou timidamente a informação de que ele atuaria no mercado da bola e, não sei se por acaso ou não, esse é um dos setores mais inflacionados do país nos últimos anos. Espero que seja apenas coincidência.

Por fim, sem esquecer tratar-se de um criminoso perigoso, temos que reconhecer a capacidade Marcola, que preso há mais de 30 anos, sem acesso às coisas da tecnologia, sem poder fazer reuniões societárias para definir os rumos do negócio e mesmo sem um processo comunicacional minimamente ágil exigido para de algo desse tamanho e complexidade, consegue ser o presidente  disso tudo. Ah se essa capacidade fosse utilizada para  o bem.

É tenente coronel, membro da Academia Brasileira de Letras e Artes do Cangaço. 

O texto acima é opinião do autor e não representa o pensamento do site Destaquenoticias

 

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