

Por Péricles Andrade[1] e Marco Aurélio Dias de Souza[2]
Ao longo das suas trajetórias e atuações no campo político (Bourdieu, 1998) em Sergipe, João Alves (1941-2020) e Marcelo Déda (1960-2013) sempre estiveram em lados opostos. Inclusive, disputaram duas eleições para o governo do Estado com resultados acirrados (Déda 52,6/% x João Alves 45,02% em 2006; Déda 52,08 x João Alves 45,19% em 2010). Em 2012, João Alves Filho (PFL/DEM), então candidato vencedor para o cargo de Prefeito de Aracaju nas eleições daquele ano, registrou sua solidariedade ao governador Marcelo Déda (PT) e a sua família em uma das primeiras entrevistas concedidas logo após a vitória nas urnas. Naquele momento, a sociedade sergipana havia sido informada que o governador tinha sido diagnosticado com um câncer gastrointestinal, o que ocasionou no seu falecimento em 2 de dezembro de 2013. O ato de solidariedade e respeito do prefeito João Alves também foi registrado na ocasião do falecimento de Marcelo Déda, com o anúncio, em entrevista concedida na Rádio Jornal AM que, depois de finalizado, o mergulhão da Tancredo Neves receberia o nome de Governador Marcelo Déda Chagas, perpetuando assim o nome do falecido gestor estadual (Ver: https://www.aracaju.se.gov.br/noticias/57132/prefeito_homenageia_governador_marcelo_deda.html).
A morte de Marcelo Déda do Partido dos Trabalhadores (PT) causou uma grande comoção nacional, com manifestações de lideranças políticas não apenas da esquerda, mas também de representantes de partidos de centro e de direita. Lembramos que, na data da morte, havia um lançamento de um livro de um sociólogo público de Sergipe vinculado ao pensamento liberal e conservador. Esse intelectual, em entrevista concedida ao vivo a um telejornal local, anunciou o cancelamento do evento naquela data, em respeito à memória do líder petista falecido (Ver: https://g1.globo.com/se/sergipe/videos-bom-dia-sergipe/video/sociologo-cancela-lancamento-de-livro-nesta-segunda-feira-em-aracaju-2991432.ghtml).
Esta postura de respeito entre adversários políticos não tem sido o tom adotado por alguns candidatos(as), filiados(as) e eleitores(as) vinculados a certos coletivos partidários que atuam na política brasileira, principalmente a partir dos pleitos municipais de 2016. Particularmente, em Aracaju, tivemos no dia 3 de outubro de 2024 o episódio envolvendo Flavio da Direita Sergipana, candidato a vereador pelo Partido Liberal (PL), que estava no carro que atropelou Charles Belchior, militante do PT. Os dois partidos estavam realizando eventos de campanha no conjunto Augusto Franco, bairro Farolândia, na zona sul da capital, quando o desentendimento começou. Os envolvidos afirmam que o petista foi arrastado por cerca de dois quilômetros. Através de imagens que circularam nas redes sociais é possível observar o então candidato do PL com o homem pendurado no capô. No vídeo, o militante petista grita pedindo “para, pelo amor de Deus” e geme de dor, dizendo que o motorista quebrou sua perna. Já na gravação feita dentro do veículo, o motorista repete duas vezes que não consegue enxergar a via, enquanto os colegas passam as direções do caminho. Após sair do capô, o petista cai no chão, e continua pedindo por ajuda enquanto pessoas ao redor gritam (Ver: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2024/10/03/candidato-bolsonarista-atropela-militante-petista-se.htm?cmpid=copiaecola).
Esse episódio em Aracaju não é um ato isolado. Ele nos remente às diversas situações em outros estados brasileiros. Citemos três exemplos. Em 14 de outubro 2015, no velório em Belo Horizonte de José Eduardo Dutra, ex-presidente do PT e da Petrobras, panfletos com os dizeres “petista bom é petista morto” e outros com ofensas à então presidente Dilma Rousseff foram jogados em frente à casa de funerais, na região centro-sul da capital mineira (Ver: https://g1.globo.com/minas-gerais/noticia/2015/10/pt-cobra-de-policias-e-mp-apuracao-sobre-petista-bom-e-petista-morto.html).
Em 2022, Marcelo Aloizio de Arruda, Guarda Municipal de Juiz de Fora, Paraná, foi assassinado pelo policial penal federal Jorge José da Rocha Guaranho em festa de aniversário na qual a vítima homenageava Lula naquela cidade do oeste paranaense. Arruda comemorava sua festa de 50 anos com temas vinculados ao PT e à candidatura Lula, com cantos e vivas ao ex-presidente. O evento reunia cerca de 40 pessoas e, após a celebração, a festa foi invadida pelo agente penitenciário aos gritos “Bolsonaro” e “mito”. Segundo relatos, houve uma discussão entre o aniversariante e Jorge, que sacou uma arma, ameaçou os convidados e disparou dois tiros contra Aloizio (Ver: https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/11465/homem-e-morto-por-bolsonarista-em-aniversario-com-tematica-do-pt).
A violência política não é uma novidade no Brasil. Péricles Andrade, um dos autores deste texto, lembra que uma das histórias mais lembradas na sua família se refere às tensões políticas envolvendo seus avós na década de 1940 no município de Lagarto em Sergipe. Ao final de uma eleição local disputada entre os tradicionais agrupamentos políticos, os avós tiveram que se mudar para Estância em virtude de conflitos envolvendo familiares e adversários políticos. Entretanto, estamos falando da violência política e discurso de ódio como modus operandi. O caso do atropelamento relatado e os compartilhamentos de atos violentos e narrativas de ódio de candidatos e candidatas à Câmara Municipal de Aracaju nas eleições de 2024 estão associados à ascensão do pensamento reacionário e autoritário, com sua concretização enquanto projeto político, sobretudo, a partir da eleição democrática de uma liderança “carismática”, truculenta e absolutamente questionável em termos de trajetória política como uma alternativa de salvação dos interesses das elites brasileiras nas eleições presidenciais de 2018 (Casimiro, 2020).
Estamos nos referindo a um programa de ultradireita que busca tanto a liquidação dos movimentos progressistas e das esquerdas, que se constitui a partir da década de 2010 no Brasil. Entre 2013 (Jornadas de Junho) e 2018 (eleição de Bolsonaro) constatamos a desorientação e a imprevisibilidade na política brasileira. Observamos um movimento de perda de legitimidade do sistema político com a judicialização da política e a politização da justiça e, na vertical, o descompasso entre esse sistema e a sociedade. As Jornadas de Junho funcionaram como um gatilho gerador de outra percepção coletiva sobre a realidade brasileira: a disputa política remeteu à reflexão sobre a democracia hoje e a ditadura militar, espectro que sempre sombreou os momentos críticos dos últimos anos. O tempo da política intensificou ainda mais as propriedades do tempo da crise (imprevisibilidade, instabilidade, violência política, fraturas etc.), ao colocar em jogo a qualidade, a consistência e o futuro do tempo da democracia no Brasil (Almeida, 2019).
Por outro lado, também constatamos a Memetização da realidade, que reduz o espaço da defesa de ideias e propostas ao nível da superficialidade das mensagens curtas dos aplicativos móveis e das redes sociais, os chamados memes, “viralizando” informações rasas, acintosamente descontextualizadas, bem como notícias falsas (fake news), em um vertiginoso e contínuo processo de renovação, transformando o trabalhador em um voluntário passivo diante da própria condição de explorado. A importância de compreender essa dinâmica foi reforçada por Hannan (2023), ao apontar que a cultura digital moldou o caminho para que Trolls invadissem cada aspecto da vida social e política, alterando a forma como nós interagimos com os outros na esfera pública e as normas da política democrática. A ideia do trollar surgiu de formas juvenis e sociopatias da internet, estimuladas por uma lógica que valorizava a soberania individual, o anonimato e propiciava uma assimetria entre o troll e a sua vítima. Essa compreensão das relações sociais justificava a desumanização e o abuso como comportamentos aceitáveis rapidamente foram transferidos para um discurso público cada vez mais fragmentado e desordenado. Nas eleições muncipais de 2016, para cada novo tema em disputa, que de alguma forma mobilize o debate social, foi despejado um volume imenso de notícias, mensagens, frases, fotos e vídeos nas mídias sociais e aplicativos móveis, como uma verdadeira arma simbólica de produção de significados (Casimiro, 2020).
É importante registrar que tivemos outros episódios nas eleições de Aracaju com situações de violência política e propagação de discursos de ódio contra os(as) candidatos(as) opositores(as). Temos aqui em Sergipe a visibilidade e relevante crescimento de grupos que assumem “sem rodeios” discursos conservadores ou reacionários. São agentes e grupos que entram em atrito com os petistas (programas sociais, ocupantes de cargos, políticas de equidade social). São anticomunistas renitentes, nostálgicos da ditadura militar, fundamentalistas religiosos e liberais econômicos extremistas. Alinha-se a esses coletivos de ultradireita a atuação de intelectuais coletivos, de espaços de socialização, como instituições religiosas conservadoras, dos meios de comunicação e das novas mídias sociais, que esvaziam o debate político de sua profundidade em função da reprodução automática e irrefletida de determinados discursos.
Trata-se de uma direita neoconservadora com posturas autoritárias e antidemocráticas, com a recusa à democracia liberal, ou mesmo qualquer forma de democracia. É a direita que converte adversários como inimigos, principalmente as pessoas ligadas aos partidos de esquerda, militantes de movimentos sociais feministas, negros e LGBTQIAPN+, indígenas, dentre outros. As tensões envolvem o “cidadão de bem”, trabalhador ou proprietário “ordeiro” e, de outro, o “vagabundo”, “vândalo”, “drogado”, “arruaceiro”, o indivíduo fora das bordas que delimitam o possível autorizado pela ordem. Por meio da combinação do medo com a percepção de uma força acima das leis, legitima-se a violência. Há uma ênfase na “agenda moral” conservadora, entendida como caminho para que a direita reconquiste ao menos uma parte da base social que perdera com as políticas de combate à miséria associadas aos governos de centro-esquerda no Brasil.
A investida contra a carreta do PT pelo candidato da Direita Sergipana em Aracaju na eleição municipal de 2024 está associada à reciclagem do antigo anticomunismo. Nessa perspectiva trata-se de um combate a “encarnação do comunismo do Brasil”, gerando uma notável sobreposição entre anticomunismo e antipetismo, com a fusão do primeiro com o reacionarismo moral. Esse discurso é fundado no sentimento de aversão à política – como reduto da corrupção e do atraso – e do antipetismo, espécie de signo único de todos os problemas políticos, econômicos, sociais e morais do país. Estratégia de ataque e desqualificação da política e das esquerdas de modo geral, acionada pela direita tradicional, que acabou por respingar em seu próprio território, como uma espécie de “fogo amigo”, abrindo o campo para a extrema-direita autoritária e truculenta avançar (Casimiro, 2016).
O atropelamento brevemente relatado pode ser associado à campanha “Não foi acidente!”, lançada pela SBAIT (Sociedade Brasileira de Atendimento Integrado ao Traumatizado), com o objetivo de conscientizar os motoristas sobre suas decisões e responsabilidades em ocorrências de trânsito. De fato, Flávio da Direita Sergipana – que recebeu pouco mais de 1.200 votos para o cargo de vereador e ficou como suplente (Ver: https://www.cartacapital.com.br/politica/bolsonarista-que-atropelou-militante-do-pt-em-aracaju-e-indiciado-por-tentativa-de-homicidio/) – e mais três pessoas foram indiciadas por tentativa de homicídio e o candidato ainda foi enquadrado em comunicação falsa de crime por “subverter os fatos para acobertar a infração que havia acabado de cometer”. O promotor Francisco José de Oliveira Góis, da 4ª Promotoria de Justiça do Tribunal do Júri de Aracaju, considerou que os quatro bolsonaristas agiram por motivo “fútil”, uma vez que o crime “se origina de disputa eleitoral por preferências político-partidárias antagônicas” (Ver: https://veja.abril.com.br/coluna/radar/mp-de-sergipe-denuncia-quatro-por-tentativa-de-homicidio-contra-petista/).
O episódio nos remete, inclusive, às ações com discursos de ódio compartilhados até mesmo por candidatos e candidatas à Câmara Municipal em suas redes sociais durante as eleiçõs de 2024. Houve, de fato, uma utilização competente das novas ferramentas tecnológicas quanto ao espaço concedido nos meios de comunicação tradicionais, o que converteu suas publicações em capitais políticos que culminaram na eleição de dois representantes dessa direita “sem rodeios”. Embora a cultura digital tenha legitimado essa lógica, cabe registrar que Mouffe (2005), ao propor um modelo agonístico de democracia, já percebia que a democracia liberal, ao se organizar a partir de modelos associativos ou deliberativos, havia reduzido o caráter do Político (marcado pelo confronto entre adversários em um sistema de regramento).
Essa redução, atrelada à necessidade da formação de consensos, governabilidade e estabilidade, motivou a sensação de desencanto com a capacidade transformadora da democracia, uma vez que as alternativas presentes no interior do jogo democrático pareciam não possibilitar transformações reais. Em termos práticos, se o debate de projetos de mundo no campo político em Sergipe entre adversários se tornou represado por uma busca infindável pelo consenso, outras formas de oposições baseadas na ideia de amigo/inimigo ganharam forma no debate público, inclusive, entre elas, a possibilidade do surgimento de estratégias que negam as regras do próprio regime democrático como as atualmente empregadas pelos movimentos associados à ultradireita.
A ultradireita em Aracaju, através de seus representantes eleitos, tem atuando para redefinir os termos do debate público na Câmara Municipal, destruindo consensos que pareciam assentados desde o final da ditadura militar (1985).
REFERÊNCIAS
ALMEIDA, Ronaldo de. Bolsonaro presidente: Conservadorismo, evangelismo e a crise brasileira. Novos estudos CEBRAP .SAO PAULO, V38, n. 01, p. 185-213, JAN.–ABR. 2019.
ANDRADE, Péricles. A política e nova mídia no Brasil. 30 out. 2014. Disponível: https://www.ufs.br/conteudo/15257-a-pol-tica-e-nova-m-dia-no-bra. Acesso em 22 ago. 2025.
BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. 2. ed., Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.
CASIMIRO, Flávio Henrique Calheiros. A Nova Direita no Brasil: aparelhos de ação político-ideológica e atualização das estratégias de dominação burguesa (1980 – 2014). Tese (Doutorado em História Social) – Universidade Federal Fluminense, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Departamento de História, 2016.
CASIMIRO, Flavio Henrique Calheiros. A tragédia e a farsa: a ascensão das direitas no Brasil contemporâneo. 1. ed.— São Paulo : Expressão Popular, Fundação Rosa Luxemburgo, 2020.
HANNA N, Jason. Trolling Ourselves to Death: Democracy in the Age of Social Media. Oxford: Oxford University Press, 2023/2024.
MOUFFE, Chantal. Por um modelo agonístico de democracia. Revista de Sociologia e Política, Curitiba, n. 25, p. 11-19, nov. 2005. DOI: https://doi.org/10.5380/rsp.v25i0.7071. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/rsp/article/view/7071. Acesso em: 13 ago. 2025.
OLIVEIRA, W. J. F. de. Mídias sociais digitais, participação política e protestos anticorrupção. Estudos de Sociologia, Araraquara, v. 26, n. 50, 2021. DOI: 10.52780/res.14759. Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/estudos/article/view/14759. Acesso em: 22 ago. 2025
SOLANO, E. G. (org.). O ódio como política: a reinvenção das direitas no Brasil. São Paulo: Boitempo, 2018.
[1] Professor Titular da UFS. Doutor em Sociologia pela UFPE. E-mail: periclesdcs@academico.ufs.br
[2] Professor no Adjunto da UFS. Doutor em Sociologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. E-mail: marcodias@academico.ufs.br
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