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O Nordeste nas páginas de Gilberto Freyre

Por Elayne Messias Passos*

O Nordeste brasileiro já foi descrito e analisado por inúmeros intelectuais. Pesquisadores de diferentes áreas dedicaram-se à tarefa de documentar, compreender e narrar essa porção do país. Nenhum, porém, alcançou repercussão cultural e acadêmica tão ampla quanto Gilberto Freyre (1900–1987).

Autor de uma vasta e respeitada obra sobre o passado colonial brasileiro, a partir de referenciais da antropologia aprendidos com figuras como Franz Boas (1828-1942), Freyre tomou Pernambuco, sua terra natal, como campo privilegiado de reflexão. Dessa escolha nasceu uma interpretação original e influente sobre o Nordeste. Menos voltado à economia e mais atento à cultura e à história, o “Mestre de Apipucos” buscou identificar as raízes que, em sua visão, definiriam a região.

Pelas páginas freyrianas, surge um Nordeste simultaneamente suntuoso e decadente. Entre seus livros, Nordeste, publicado originalmente em 1937 pela Livraria José Olympio, é um marco. No prefácio da primeira edição, o autor distingue dois Nordestes — o agrário e o pastoril — e deixa claro que seu foco será o primeiro: o da cana-de-açúcar, que se estende por terras de massapê e várzeas do Norte da Bahia ao Maranhão, sempre próximo ao litoral. Era nesse espaço que Freyre via “a civilização moderna mais sedentária que o português fundou nos trópicos”.

Por que esse recorte específico? Conforme Durval Muniz de Albuquerque Jr., em A Invenção do Nordeste, ao reconhecer a diversidade interna da região, Freyre construiu uma unidade imagética baseada no Nordeste açucareiro. Para o historiador, a zona de terras secas e áridas serviria melhor a discursos de denúncia social; ainda assim, Freyre preferiu valorizar a memória do açúcar, associada ao poder e à riqueza do passado — recurso que funcionava, simbolicamente, como compensação para a decadência contemporânea.

O escritor buscava resgatar tradições da aristocracia rural, enxergando nelas uma âncora diante das mudanças modernas e uma fonte de estabilidade frente às turbulências contemporâneas. Sua utopia, segundo Albuquerque Jr., era a de uma sociedade em que técnica e tradição andassem juntas, sempre sob o comando da segunda. Daí não serem raras, em seus textos, passagens marcadas pelo saudosismo — como a descrição das terras de massapê como berço das “boas maneiras e gestos suaves”, onde crianças eram criadas por amas negras e aprendiam cedo o ritual do chá.

Apesar dessa forte ligação com o passado, Rosa Maria Godoy Silveira, em O Regionalismo Nordestino: existência e consciência, adverte que não se deve enquadrar a obra de Freyre de forma simplista como mera expressão das oligarquias. Criada no contexto da crise da República Velha, sua escrita modernizou forma e conteúdo, questionando interpretações vigentes e introduzindo novas perspectivas. A obra do “Mestre de Apipucos” combina memória, tradição e análise social para moldar a imagem de uma das regiões mais marcantes do Brasil.

Assim, Nordeste se insere em um projeto mais amplo, já esboçado no Manifesto Regionalista (1926) e consolidado em Casa-Grande & Senzala (1933): evidenciar uma região em declínio, mas também discutir temas como meio ambiente e trocas culturais. Mais do que um registro nostálgico, o Nordeste de Freyre permanece como leitura sedutora e instigante sobre a relação entre tradição e modernidade e sobre as múltiplas identidades que compõem o Nordeste brasileiro.

*É licenciada em História pela UFS, doutora em Antropologia pela UFBA e assessora do ministro da Educação. Atualmente, realiza estágio de pós-doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Ensino de História da UFS.

O texto acima é opinião da autora e não representa o pensamento do site Destaquenoticias.

 

 

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