
Por Lucindo José Quintans Júnior*
Em 1951, o Brasil ainda contava bois, café e promessas. Foi nesse cenário que surgiu o Conselho Nacional de Pesquisas, que em 1974 passou a se chamar Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, preservando a sigla CNPq. Mais do que um detalhe administrativo, uma rara demonstração de continuidade em um país acostumado a recomeçar.
Enquanto a economia ainda tateava entre o rural e o improviso, o CNPq representou um gesto incomum de lucidez ao tratar conhecimento como estratégia e não como ornamento. Não era o caminho óbvio. Era, talvez, o mais improvável para um país que ainda carecia do essencial. E foi justamente ali, sem alarde, que o Brasil começou a organizar sua inteligência.
A presença do CNPq está espalhada por conquistas que mudaram o país: da adaptação da soja ao Cerrado, que transformou o Brasil em potência agrícola, ao carro movido a álcool, pioneiro no mundo; das pesquisas que sustentaram o avanço da indústria aeronáutica e energética aos estudos que hoje ajudam a desenvolver vacinas, medicamentos e tecnologias estratégicas. Mas não se trata apenas de laboratórios e engenharias. Nas ciências humanas e sociais, o CNPq também ajudou a produzir evidências que orientaram políticas públicas em educação, redução de desigualdades e desenvolvimento social. Em silêncio, geração após geração de cientistas, em todas as áreas do conhecimento, foi formada sob sua órbita.
Como bem sintetizou a pesquisadora e amiga, Profa. Vanderlan Bolzani, em artigo recente intitulado “75 anos do CNPq: a ciência brasileira como projeto de nação”, publicado no Jornal da Ciência (https://jcnoticias.
Basta olhar para fora para entender o que isso significa. Os Estados Unidos construíram parte de sua liderança global apostando de forma contínua em ciência e inovação desde o pós-guerra. A China, nas últimas décadas, transformou investimento maciço em pesquisa em motor de crescimento econômico e soberania tecnológica. Nenhuma dessas trajetórias foi acidental. Ambas nasceram da convicção de que ciência é infraestrutura de futuro.
O Brasil conhece esse caminho, mas insiste em andar com o freio puxado. Nos últimos anos, o Congresso Nacional tem praticado um curioso exercício de contradição: discursa em defesa da ciência e, na prática, corta seus meios de sobrevivência. Mesmo com o esforço do governo federal em descontingenciar o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), que devolveu algum oxigênio ao sistema, a tesoura segue atuando sobre a espinha dorsal do CNPq. Some-se a isso a redução silenciosa, porém persistente, do seu quadro de servidores ao longo da última década. Não se trata de burocracia descartável, mas de quadros altamente qualificados, especializados e difíceis de formar, cuja perda compromete a memória institucional e a capacidade operacional da agência. Ciência não se faz por decreto, nem se reconstrói com improviso.
Há também uma geografia desigual que o país parece aceitar com naturalidade indevida. Persistem assimetrias profundas no financiamento e na infraestrutura científica, concentradas historicamente em poucos estados, enquanto vastas regiões seguem operando com menos condições, apesar do talento disponível. Fortalecer o CNPq, portanto, não é apenas ampliar recursos, é redistribuí-los com inteligência estratégica. É garantir que a ciência brasileira não seja um arquipélago de excelência cercado de vazios, mas um sistema nacional integrado, onde oportunidades e capacidades estejam menos determinadas pelo CEP e mais pelo mérito, desenvolvimento estratégico de uma nação e pelas necessidades de sua sociedade.
Celebrar os 75 anos do CNPq não é apenas revisitar o que foi feito, mas reconhecer o que foi construído apesar das dificuldades. É lembrar que, em meio a crises e ciclos curtos, houve quem apostasse no longo prazo. O CNPq ajudou a formar gerações, estruturou a ciência brasileira e deixou marcas concretas no desenvolvimento do país.
Mais do que uma instituição, tornou-se um patrimônio coletivo. Celebrá-lo, portanto, é reafirmar uma escolha: a de que o Brasil que pensa, pesquisa e inova é o Brasil que avança. Que os próximos anos sejam menos de resistência e mais de projeto. Porque, quando um país decide investir em sua inteligência, ele não apenas comemora o passado, ele constrói futuro.
*Farmacêutico, Professor Titular no Departamento de Fisiologia da Universidade Federal de Sergipe (DFS/UFS). Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq – Nível 1A. E-mail: lucindo@academico.ufs.
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