Mais uma reforma ortográfica atendendo a um acordo entre as Academias de Letras do Brasil e de Portugal.O objetivo, segundo dizem, é uniformizar a escrita, tanto aqui, na antiga colônia e nas demais ex-colônias, quanto em Portugal. Via Internet, já havia recebido um texto condensado sobre as tais mudanças. Fiquei me coçando para dar minha opinião, mas depois pensei: quem sou eu para opinar sobre essas coisas de ortografia, gramática, o escambau, coisas de doutos acadêmicos e sei lá mais quem.
Lembrei-me de 1971, na última reforma ortográfica, quando, entre outras coisas, caiu o acento diferencial de tantas palavras, mas permaneceu o de outras, o trabalho que tive de comprar tudo que era manuais ou livrinhos sobre a nova ortografia, porquanto eu estava em pleno pique de trabalho de redação jornalística, tanto na Bahia, continuando aqui, já em 1972 e me preocupava em me atualizar logo. Antes mesmo que os dicionários e livros de gramática fossem atualizados, editados e distribuídos para livrarias e bibliotecas. Com o intervalo de 36 anos, vem outra reforma ortográfica, sacramentada pelas duas Academias e todos devem seguir, especialmente os que vivem da escrita.
Em 1910, o Brasil fez uma simplificação da ortografia, livrando os brasileiros do ph e outros h, a exemplo de pharmácia, phantasma, theísmo, christalino, etc. Hoje todos concordam que foi mais confortável, terem nos livrados de tantos h...mas dizem que houve resistência de muitos que conservaram, especialmente nos nomes de casas comerciais, o ph.
Pela nova convenção (pois ortografia é convenção) tenta-se unificar a escrita (somente a escrita oficial porquanto o falar e os significados de muitas palavras permanecerão diferentes) no Brasil, Portugal e demais países em que se fala a Língua Portuguesa. A ortografia igual para esses países (ditos lusófonos) é idéia antiga, defendida por uns e odiada ou considerada desnecessária por outros, na área dos acadêmicos e gramáticos. Os que defendem a unificação da ortografia, argumentam que a existência de duas grafias oficiais acarreta problemas na redação de documentos em tratados internacionais e na publicação de obras de interesse público. Se isso é verdade, mas a realidade é que somos a única língua no mundo com dois cânones oficiais ortográficos, um europeu e um brasileiro. O árabe é a língua de mais de 250 milhões de pessoas em 21 países, mas, se as pessoas não se expressam no mesmo árabe, mas a língua oficial dos meios de comunicação de massa em todo o mundo árabe é escrita do mesmo jeito. Assim ocorre também com o espanhol, o francês e outras, unificadas na escrita oficial, mas falada com inúmeras vertentes, os dialetos. Que complicação organizada! Mas Portugal e Brasil são separados pela mesma língua e por que não resolveram seu problema ortográfico? Isso aí é o que preocupa os doutos e eu, modesto escrevinhador, digo: sei lá! A realidade é essa, tire com um gancho! Como dizia a rapaziada do meu tempo, na rua de Vitória...
Na verdade, como disse lá em cima, não falei logo sobre esse negócio, porque, para mim não deveriam fazer mais nenhum acordo mudando p. nenhuma! Mas fiquei calado, com medo de dizer besteira, mas eis que muitos bans-bans da escrita estão deitando e rolando com esse acordo e até o nosso mestre Pasquale Cipro Neto, gramático, mas pragmático, que entende e considera o falar do povo e dos artistas, deu uma paulada bem dada nesse novo acordo. Viva! Vieram em socorro da minha estranheza e do meu desacordo com o acordo, que não veio somente tentar uniformizar a escrita, mas estabelece alterações no sistema ortográfico, a exemplo de demitir o hífen,que todos que escrevem já estava acostumado e na eliminação de acentos, fizeram um verdadeira farra, retirando o diferencial de muitas palavras, mas ainda conservando em outras. E a intervenção atinge mais ao Brasil, ao que me consta. Professor Pasquale diz e muita gente concorda que esse acordo era desnecessário, ainda mais que o custo supera o benefício e será inevitável que vamos ter um período de alguns anos com o desconforto de termos de conviver com duas grafias, porquanto nem todos mudarão o modo de escrever a partir de 1. de janeiro próximo, outra bobagem dos apressadinhos doutores do acordo. Dêem ou deem tempo a isso, mas certamente tudo irá se acomodando com o tempo, tendo muitos escritores, jornalistas e outros, já dispostos a deixar, comodamente, para a revisão dos jornais, revistas e editoras de livros, executarem as mudanças oficiais.
Penso agora nos pobres alunos das escolas e faculdades, que sacanagem! Logo nessa área, redação, onde a turma é mais fraca. Terão que reaprender a escrever de novo o que ainda não tinham aprendido a fazer! E dependendo do professor, estarão ferrados.E o pior dos itens negativos sãos despesas, os custos, altíssimos, em termos de impressão e editoração de novos livros escolares, em tempo recorde! Mas é claro que irão mudar a data da "implantação" desse acordo, que deverá ser efetivado com tempo, dando tempo ao tempo, como se diz.Diante dessa doidice, que não irá melhorar em nada o aprendizado da língua portuguesa no Brasil, nem em Portugal, o melhor que se faz é não se ter pressa nas mudanças, especialmente em termos de edição de novos livros escolares, gramáticas, etc. E já pensaram em novos programas de redação para os computadores na imprensa, em casa, escolas, escritórios, repartições, que dinheirama! Esse pessoal, do alto dos seus gabinetes acarpetados, pensaram, em reuniões e viagens entre o Rio e Lisboa, se valeria mudar mesmo com todos esses custos? Uma coisa que não era essencial para sobreviência da língua, que aí está viva e o povo vai mudando no escrever e no falar pelos tempos afora? Ôxente!
Mas, afinal, nem tudo é desprezível e inócuo nessa reforma ortográfica. Somente vale o retorno triunfal, oficialmente, considerando que todos brasileiros continuaram usando essas letras, do k, w e y, que estavam numa clandestinidade "permitida"! E dizer que teve gente que retirou o seu querido y ou w do nome, mesmo que a lei preservasse esse direito no nome próprio! Bastaria uma resolução sacramentada pela Academia Brasileira de Letras e pelo Governo anunciando o retorno oficial dessas três letra e pronto! Que no caso, seria o retorno, para usar uma gracinha que de tanto usada já se tornou chata: "a volta dos que não foram".
Mas, de bom grado ou não, vamos todos cuidar de atualizar as nossas escritas, conforme o acordão beletrista, dispensando acentos diferenciais e outras coisitas mais. Agora: estou com uma pena danada do hifen! Que ele tinha o seu charme, ah isso tinha! Mas que enjôo, aliás, enjoo (a grafia vai ficar mais feia, tanto nessa quanto em outras em que os acentos irão cair, por decreto!) Não tinham coisa melhor para fazer não para perderem tantos anos estudando mudanças mais para atrapalhar que para facilitar?