Tenho um amigo que acha exagerado esse amor do aracajuano pela cidade, acha forçado, como se todos fôssemos obrigados a gostar de tudo, sem críticas. Não concordo com isso, acho esse amor por Aracaju recente e salutar. Na minha modesta opinião ele vem junto com as mudanças ocorridas na cidade desde 2001.
Essa mesma pessoa vê poucos defeitos no Rio de Janeiro e a usa sempre como comparação a Aracaju. É claro que as duas cidades não têm comparação, nem para bem, nem para o mal.
Vamos alguns exemplos: o carioca tem mania de fazer xixi na rua (o choque de ordem de Eduardo Paes tenta por um fim nisso), o aracajuano não faz isso (e não me importam os motivos); o carioca joga muito lixo na rua, inclusive arremessando de janelas de edifícios, o aracajuano ainda joga lixo na rua, mas é pouco (muita gente tem orgulho da limpeza da cidade); o carioca se acha, o simples fato de ter nascido no Rio é motivo para se achar superior, o aracajuano muito pelo contrário; o carioca adora fazer promessas sem fundo ("vamos sair qualquer dia desses", "passa lá em casa", "pode deixar que vejo isso pra você"), espere sentado ou você se cansa; os prazos cariocas estão mais para os baianos, tudo tem seu tempo e calma, nada da obsessão sergipana com horários.
Em algumas coisas, somos muito parecidos: atropelamos as pessoas nas ruas sem pedir licença (pedestres); corremos e empurramos as pessoas para garantir um assento no ônibus ou metrô; não usamos as palavrinhas mágicas (com licença, por favor, desculpe e obrigada); os mais novos se fingem de morto nos ônibus para não ceder assento para idosos e gestantes; os mais novos não têm paciência e carinho para com os idosos; a burguesia carioca é tão preconceituosa quanto a suposta burguesia aracajuana; os motoristas estacionam em fila dupla; param em local proibido e ligam o pisca alerta como se ele fosse suficiente. Como nós eles amam a cidade acima de qualquer coisa.
Em algumas coisas eles são melhores que nós: sabem curtir a cidade nos seus mínimos becos, aproveitam todas as oportunidades de ir à praia; admiram a natureza que foi mais que generosa com o município; imediatamente se tornam velhos amigos de infância; acham que tudo é motivo para samba; respeitam as raízes culturais da cidade; respeitam a história da cidade e seus personagens; os monumentos a pessoas como Drummond e Noel Rosa estão em lugares tudo a ver, onde essas pessoas viviam, não aglomerados como um mausoléu de mau gosto a céu aberto; os idosos vivem nas ruas, vão a cinema, teatro, restaurantes, praias, usam biquínis e outras coisas modernas. Vou abrir um parêntese (um dia de sol escaldante, paro para almoçar em Vila Isabel e vejo uma senhora de mais de 70 anos almoçando na mesa em frente acompanhada de um belo copo de chope em plena segunda-feira, sozinha), esse é uma cena impossível em Aracaju. Mas a melhor de todas as diferenças é que no fim da tarde em Ipanema todos se levantam para ver o sol e aplaudem o espetáculo que é ele se pondo por trás do morro Dois Irmãos.
Para mim são diferenças, os lugares e as pessoas. O Rio é a cidade mais linda do mundo, nesse assunto não tem como concorrer. Aracaju é uma cidade belíssima e um dos melhores locais para viver. Aqui não é um mar de rosas, nem Aracaju um de lama, como quer o meu amigo sergipano. E eu, apesar de adorar o Rio de Janeiro, morro de saudade da baixinha gostosa que é Aracaju, da vista da curva do Iate, dos botos pulando no Rio Sergipe, do pôr do sol do meu apartamento, da lua nascendo na orlinha do Bairro Industrial, do caranguejo na praia (do pastel, da ostra e do amendoim), e do meu gato e minha filha e seus belos olhos.